quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Vírus da aids aumenta em 600% entre mulheres acima dos 60 anos


Um número assustador. E está crescendo a proporção de mulheres na terceira idade que vem contraindo o tão temido vírus HIV, da Aids. Entre a população feminina, as estatísticas oficiais mostram, esta é a faixa etária com maior variação de aumento de casos de confirmação do HIV. De 2007 a 2017, os diagnósticos cresceram sete vezes, na casa de 657%. E qual seria a explicação para essa disparada. Quem esclarece é a ginecologista Helaine Milanez: “A vida sexual voltou a ser muito ativa nessa população. O surgimento de estimulantes sexuais proporcionou isso. Ao mesmo tempo, em uma faixa etária em que as pessoas não têm mais receio de gravidez, o uso de preservativo é menor.” Eu sempre falo aqui, no 50emais, dos sites para pessoas mais velhas que querem namorar. É muito saudável. Mas precisa sempre ficar alerta. E mesmo que seu parceiro tenha 80 anos, faça ele usar camisinha.

Leia o a reportagem de Isabela Aleixo para O Globo:

Incomodada com os constantes sinais de fraqueza, Leandra, de 69 anos, pediu ao médico um exame de HIV. Deu positivo. Com isso, entrou em uma faixa etária em que a taxa de detecção de Aids aumentou na última década. Ao contrário do que diz o senso comum, a escalada da doença não ocorre apenas entre os mais jovens.

— No consultório, escutei que poderia morrer de um acidente, mas não de HIV. E aí comecei o tratamento — relembra Leandra.

De acordo com o boletim epidemiológico HIV/Aids 2018 do Ministério da Saúde, entre a população feminina esta é a faixa etária com maior variação de aumento de casos de confirmação do vírus HIV. De 2007 a 2017, os diagnósticos cresceram sete vezes, na casa de 657%.

A taxa de detecção de Aids em mulheres acima de 60 anos também aumentou, na última década, de 5,3 para 6,4 pessoas para cada 100 mil habitantes.

A ginecologista Helaine Milanez, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, afirma que alguns fatores contribuem para o aumento de diagnósticos de HIV na terceira idade:

— A vida sexual voltou a ser muito ativa nessa população. O surgimento de estimulantes sexuais proporcionou isso. Ao mesmo tempo, em uma faixa etária em que as pessoas não têm mais receio de gravidez, o uso de preservativo é menor.

Revolução que não diminuiu o estigma e o preconceito em torno do HIV na vida de Leandra e de outras mulheres maduras que são portadoras do vírus. Ela não revelou o diagnóstico para os filhos, mas, quando eles descobriram, a reação não foi das melhores.

— Todos têm preconceito. Eles falaram que eu devia buscar meus direitos, mas se afastaram de mim.

Assim como ela, Janaína (os nomes são fictícios) estava prestes a celebrar seus 60 anos quando decidiu fazer o exame, alarmada com a perda de peso. Seu médico a desencorajou, dizendo que ela não integrava nenhum “grupo de risco”. Ela bateu o pé. Deu positivo.

— Meu filho me olhou com raiva e menosprezo. Eu disse para ele que meu projeto era viver mais 20 anos e que o resultado do teste não iria mudar isso.

Desde que recebeu o diagnóstico, Janaína procurou integrar grupos de apoio de pessoas que vivem com HIV. Afastada dos filhos, Leandra, hoje, mora sozinha com um gato.

A diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery, da UFRJ, Carla Luzia Araújo, diz que muitas mulheres a partir de 40 anos só descobrem ser portadoras do vírus ao apresentarem algum sintoma ou quando vão ao médico após o diagnóstico positivo dos parceiros.

— O teste rápido de HIV deve ser integrado ao cotidiano de todos. Não deve ser compulsório, mas oferecido quando a mulher busca os serviços de Saúde, como, por exemplo, ao fazer um preventivo. Faltam políticas públicas voltadas para a prevenção em mulheres que não são adolescentes ou gestantes.

Carla Araújo inclui as relações monogâmicas como fator de falsa proteção em relação ao risco de contágio.

— As pessoas acreditam que ter um parceiro único é protetivo. Mas é também um fator de risco, pois acreditam estar protegidas e não usam preservativos.

Enquanto os jovens, população com maior número de registros de casos na última década, não viveram a epidemia do HIV e da Aids, os idosos acompanharam a evolução nas formas de tratamento da doença.

— A população idosa observou a evolução do tratamento e viu que é possível se tratar — pontua Helaine Milanez, da Unicamp.

Carla Araújo destaca a importância de se criarem campanhas de prevenção especificamente para mulheres acima de 40 anos e da necessidade de se conscientizar este grupo a fazer o teste de HIV. A rotina de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis na terceira idade, concorda Helaine Martinez, não tem sido valorizada.

— As campanhas diminuíram muito nos últimos anos. É importante assumir uma rotina de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis na terceira idade com campanhas que orientem sobre prevenção e sexo seguro. O foco das campanhas segue voltado para a população em idade reprodutiva.

O diretor geral do Hospital Universitário Graffrée e Guinle da Unirio, Fernando Ferry, lembra como exemplo a campanha do carnaval de 2009 do Ministério da Saúde, que tinha como alvo a população feminina acima dos 50 anos. O slogan era “Sexo não tem idade para acabar. Proteção também não”.

— A gente tem que ter um diálogo mais franco com esse grupo — diz.

O pressuposto de que idosos não têm vida sexual, diz Ferry, alimenta a cultura entre os profissionais da saúde de não solicitar o teste rápido para esses pacientes. Ele destaca ainda que alguns sintomas do HIV podem ser confundidos com doenças comuns da terceira idade:

— Muita gente desconhece a própria sorologia e os médicos não pedem o exame para os idosos, porque quando essas doenças se manifestam pensam logo que é da idade, como a herpes zóster, por exemplo. Além disso, há também uma falsa crença de que idosas não precisam mais ir ao ginecologista.





Fonte: 50 e mais