No último domingo (12), moradores da Praça Pasteur, na Castelânea, acionaram a Polícia Militar por conta da desordem urbana e distúrbios no local. A ação ocorreu durante a partida entre Flamengo x Fluminense, encerrada às 20h, e válida pelo Campeonato Brasileiro. De acordo com os moradores, motos, carros com som alto e o grande movimento nos bares ao redor da praça tornaram o pedido de ajuda inevitável. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a ação, que teve spray de pimenta e bombas de efeito moral para dispersar os frequentadores, que a definiram como desproporcional, já que muitos estavam no interior dos bares assistindo ao jogo.
Moradores reclamam dos constantes problemas no local. “Não somos contra o lazer, somos contra a falta de limites. A questão aqui é a falta de fiscalização. Quando se chega ao ponto de a polícia intervir é porque não há qualquer controle dos órgãos quanto à balbúrdia”, disse um morador.
A questão reacende um antigo debate sobre o teor dessas operações e principalmente sobre o funcionamento de bares em áreas residenciais. Além da Praça Pasteur, onde o problema é recorrente, outros locais também são visados como as ruas 13 de Maio e 7 de Abril, no Centro. Na Rua Dr. Nélson de Sá Earp, também no Centro, moradores acionaram o Mistério Público, obtendo um toque de recolher, no ano passado, o que deixa evidenciada a falta de uma legislação eficiente, que crie espaços para o lazer longe de moradias.
Reflexos na economia
A questão atinge diretamente também a economia da cidade, pois o setor de bares e restaurantes é um pilar econômico vital muito impulsionado pelo turismo, e que injetou mais de R$ 180 milhões nos cofres públicos em 2025, gerando mais de 5.000 empregos formais. Pontos no Centro Histórico, como as ruas citadas, vêm se tornando cada vez mais polos cervejeiros e gastronômicos. A questão, portanto, seria um reordenamento urbano para que estes espaços possam funcionar sem tirar o sossego de quem mora dos arredores.
Neste sentido, já houve tentativas de se criar corredores culturais longe de moradias, como o da Rua Floriano Peixoto, no Centro, projeto que não foi adiante. Em 2024, entrou em vigor a Lei 8.933, de autoria do vereador Fred Procópio, que criou na Rua Teresa, entre os números 608 a 800, um corredor cultural, estabelecendo regras para o uso e ocupação do espaço público. Apesar disso, não houve movimentação para se concretizar a ideia.
Para a vereadora Júlia Casamasso, o poder público de Petrópolis tem apostado em uma estratégia de contenção aos espaços de convivência com choques de ordem, constrangimento de moradores e pressão sobre comércios locais que tentam sobreviver. Mas, segue omisso em debater o problema com a profundidade necessária e em apresentar soluções realistas.
“Essa simplificação não resolve nada. E, na prática, interessa apenas a quem não é afetado por essa realidade. Porque quem vive a cidade todos os dias sabe que o problema não é a existência de lazer, é a ausência de organização. Se a cidade não oferece alternativas acessíveis, se não há planejamento, se falta presença do poder público para mediar conflitos, estabelecer regras e garantir o funcionamento adequado dos espaços, o resultado é previsível”, disse.
Para ela, a cidade precisa garantir o direito ao descanso, mas também o direito ao lazer e à convivência. Esse conflito não se resolve com repressão.
“Conviver em sociedade exige acordo, regras e limites. Mas, também acesso, possibilidade e reconhecimento de direitos. Sem política pública, o conflito vira rotina. Sem mediação, ele escala. E, sem planejamento, ele se repete. Quando a resposta é sempre a força, o que se produz não é solução, e sim um ciclo de tensão permanente”, finalizou a vereadora.
Questionadas sobre o tema, a Polícia Militar e Prefeitura de Petrópolis não quiseram se manifestar.