Petrópolis é reconhecida nacionalmente pelo patrimônio histórico ligado à Família Imperial, mas o circuito cultural da cidade vai muito além dos espaços que ajudam a contar essa história. Nos últimos anos, museus com propostas e temáticas diferentes passaram a integrar esse cenário, oferecendo ao público outras formas de conhecer personagens, períodos e experiências que também fazem parte da cultura e da memória. A Casa Stefan Zweig, Museu de Cera e Museu dos Brinquedos representam algumas dessas iniciativas e mostram como a diversidade pode ampliar a relação entre visitantes, moradores e os espaços culturais.
Uma cidade com muitas histórias para contar
Para Gabrielly Bernardes, supervisora do Museu de Cera, a força dos museus tradicionais de Petrópolis é inegável, mas a cidade pode ampliar seu potencial cultural ao apresentar outras narrativas. “Grande parte das pessoas que vêm até Petrópolis busca conhecer uma cidade marcada pela história da Família Imperial. Essa imagem acaba fazendo com que, muitas vezes, o visitante não expanda seu olhar para além do imaginário imperial”, afirma.
Segundo ela, novos espaços não precisam competir com o patrimônio histórico. A proposta é criar uma relação de complementaridade, permitindo que diferentes públicos encontrem outras formas de se identificar com a cidade. “A diversidade permite que a cidade seja percebida não apenas por uma única narrativa, mas por muitas outras vozes e experiências, ampliando as possibilidades de identificação e de acesso do visitante à cultura e à história local”, destaca.
João Maurício, produtor da Casa Stefan Zweig, também defende a ampliação do circuito cultural. Para ele, os museus históricos continuam fundamentais para a identidade de Petrópolis, mas podem dividir espaço com instituições que utilizam outras linguagens e contam histórias diferentes. “Essa diversidade permite que diferentes públicos encontrem maneiras distintas de se relacionar com os espaços e com a memória local”, explica.
Museus que apostam na experiência

A diversificação também aparece na maneira como os museus recebem seus visitantes. Para Ana Letícia Rivero, curadora do Museu dos Brinquedos, o público atual busca uma relação mais ativa com os espaços culturais. “O visitante hoje quer interagir, sentir os espaços e levar recordações como fotos e souvenirs para casa. Os museus precisam oferecer experiências que vão além do seu acervo e que produzam memórias”, afirma.
O Museu dos Brinquedos aposta justamente nessa relação afetiva. O espaço possui uma sala de experiência imersiva dedicada às décadas de 1980 e 1990, além de ambientes interativos que resgatam brincadeiras e objetos de uma época anterior à popularização da internet.
A proposta, segundo Ana Letícia, é fazer com que a visita desperte memórias e permita que diferentes gerações compartilhem experiências. “Acreditamos que nossos visitantes tenham no museu um lampejo desses tempos e procurem opções analógicas de diversão com a família e os amigos. Nosso museu realmente acompanha as pessoas para além do tempo de permanência nas salas”, conta.
No Museu de Cera, a experiência também ultrapassa a observação das esculturas. O espaço apresenta ao visitante curiosidades sobre a produção das peças, as roupas utilizadas pelos personagens e o trabalho de manutenção das obras. “Temos sempre monitores para auxiliar durante a visita e apresentar um pouco de como esse processo é feito. Afinal, é uma arte ainda pouco explorada no Brasil e que envolve uma técnica bastante detalhista e cuidadosa”, explica Gabrielly. Entre as atrações estão personagens históricos, como Dom Pedro II e Princesa Isabel, ao lado de personalidades da música, do cinema e da cultura mundial.
Do turista ao morador
Mais do que atrair visitantes, outra preocupação apontada pelas instituições é fazer com que os museus estejam integrados à vida da própria cidade. Na Casa Stefan Zweig, dedicada à trajetória do escritor austríaco que viveu seus últimos meses em Petrópolis, essa relação acontece por meio de uma programação que ultrapassa a exposição permanente.
Cineclubes, concertos musicais, lançamentos de livros e outras atividades aproximam moradores do espaço, muitas vezes colocando os próprios petropolitanos como artistas e protagonistas da programação. “Essa relação mais próxima com a comunidade cria um sentimento de pertencimento e faz com que o museu seja percebido não apenas como um lugar a ser visitado por turistas, mas como um espaço que também faz parte da vida da população local”, afirma João Maurício.
A formação de novos públicos também está entre as estratégias da instituição. A Casa Stefan Zweig mantém um trabalho educativo que leva estudantes de escolas públicas ao museu e promove conversas sobre a história do escritor, o exílio, a memória e questões que permanecem atuais. A instituição também utiliza diferentes formatos para ampliar o acesso à história de Zweig, produzindo séries, podcasts e outros conteúdos que complementam a experiência presencial.
A mudança no perfil dos visitantes também exige que os museus encontrem maneiras diferentes de apresentar seus conteúdos. “Essa nova geração está cada vez mais curiosa, questionadora e crítica. Isso é positivo, porque não se limita ao que está sendo dito ou exibido, mas busca compreender melhor, questionar e descobrir o que existe por trás daquilo que está sendo apresentado”, avalia Gabrielly.
O futuro dos museus de Petrópolis
Para os próximos anos, as instituições ouvidas apontam para um circuito cultural cada vez mais diverso e conectado. A ideia não é abandonar os museus tradicionais, mas ampliar as possibilidades de visita e criar relações entre diferentes espaços.
Para Ana Letícia, é necessário ampliar as experiências interativas e fortalecer o diálogo entre museus, centros culturais e outros pontos de cultura, inclusive em sintonia com o calendário de eventos da cidade. Gabrielly também defende investimentos em acessibilidade, atendimento e presença dos museus nos novos espaços de comunicação, mas ressalta que a modernização precisa preservar a identidade de cada instituição.
João Maurício, por sua vez, acredita que não existe uma fórmula única para manter os museus relevantes. Para ele, um dos caminhos está justamente na integração entre instituições, comunidade e diferentes linguagens. “Preservar a história não significa deixá-la congelada no tempo. Os museus precisam encontrar novas formas de apresentar seus acervos e narrativas, permitindo que diferentes gerações encontrem nelas questões que façam sentido para o presente”, finaliza.































