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| Foto: Marco Oddone |
Apesar da presença do sol, nessa segunda-feira (8), o frio veio para ficar em Petrópolis. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a passagem de uma frente fria entre quinta-feira e sábado (11 a 13 de junho) deve aumentar as chances de chuva no Estado do Rio de Janeiro.
Com isso, Petrópolis pode voltar a registrar queda nas temperaturas e chuvas isoladas. Segundo a previsão, as temperaturas devem variar de 12°C a 30°C durante a semana, com previsão de ventos fracos.
A frente fria também atingirá o estado de São Paulo (SP), sul de Minas Gerais (MG), com previsão de chuvas. Nas demais regiões a previsão é de tempo estável, com chances reduzidas de chuva.
Ciclo de extremos climáticos
A chegada das primeiras frentes frias mais intensas de 2026, combinada ao início da temporada de estiagem em parte do Brasil e à possível formação de um novo evento de El Niño, marca o início de um novo período de instabilidade climática em diferentes regiões. Especialistas alertam que o país já vive uma sequência crescente de eventos extremos, com impactos diretos no abastecimento de água, na infraestrutura urbana e no cotidiano da população.
No último mês, cidades do Sul e do Sudeste registraram queda acentuada nas temperaturas. Na capital paulista, a estação do Mirante de Santana marcou 9,4°C, a menor temperatura para o início de maio em 37 anos. Campinas (SP) chegou a 8,3°C e São Paulo (SP) registrou 7,2°C. Em São Joaquim (SC), os termômetros atingiram -4,61°C, a menor temperatura do Brasil em 2026, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
A massa de ar polar provocou geadas e temperaturas próximas de 2°C em municípios do Paraná, além de ventos intensos e baixa sensação térmica em áreas do Centro-Sul. Ao mesmo tempo, regiões do interior paulista e do oeste e norte de Minas Gerais já apresentam níveis críticos de umidade do ar, próximos de 26%, indicando o avanço do período seco típico desta época do ano.
Enquanto parte do país enfrenta frio e tempo seco, o Norte e o Nordeste vivem o cenário oposto. Chuvas acima da média histórica provocaram alagamentos e transtornos urbanos recentes em estados como Pará, Amazonas, Pernambuco e Alagoas. Em Belém (PA), acumulados superiores a 100 milímetros colocaram áreas da cidade em estado de emergência.
Estiagem
O início da temporada de estiagem acende alerta adicional para o abastecimento hídrico. Após um período chuvoso irregular, importantes sistemas de armazenamento estão entrando no período seco em condição mais sensível.
O Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de milhares de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, opera atualmente com cerca de 40% da capacidade, abaixo dos 58% registrados no mesmo período de 2025. A tendência natural de redução das chuvas nos próximos meses pode intensificar a pressão sobre os reservatórios.
A combinação entre menor disponibilidade hídrica, temperaturas variáveis e eventos extremos aumenta o risco de impactos diretos nas cidades, incluindo redução da pressão da água, necessidade de controle do consumo e efeitos sobre produção de alimentos, geração de energia e funcionamento dos ecossistemas.
“A estiagem não impacta apenas os níveis dos reservatórios, mas todo o funcionamento das cidades e dos ecossistemas. Quando há menos água disponível, os efeitos aparecem no abastecimento, na produção de alimentos e até na geração de energia. A atuação de fenômenos como o El Niño pode intensificar essa irregularidade, tornando o cenário ainda mais desafiador”, alerta André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).
Eventos extremos
Estudo lançado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica durante a COP30, em Belém (PA), em 2025, identificou crescimento expressivo dos desastres associados a ciclones, frentes frias e ondas de frio no Brasil. Entre 1991 e 2024, foram registrados 407 desastres relacionados a esses fenômenos. Apenas nos últimos quatro anos, a média anual saltou de 2,3 para 44 ocorrências aumento de 1.800% em relação à década de 1990. Ondas de frio representam 54% dos registros, frequentemente associadas a chuvas intensas, ventos fortes e danos à infraestrutura.
O levantamento, feito em parceria com o Programa Maré de Ciência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, traz ainda que mais de 1 milhão de pessoas já foram afetadas por esses eventos nas últimas décadas.
Segundo especialistas, o aquecimento global altera o comportamento da atmosfera e do oceano, intensificando extremos mesmo em períodos tradicionalmente frios. “A superfície do mar mais quente em um estado que chamamos de oceano febril libera mais calor e umidade, alimentando sistemas atmosféricos e provocando ventos e chuvas cada vez mais intensos”, explica Ronaldo Christofoletti, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor do Instituto do Mar da Unifesp.
Instituições meteorológicas acompanham ainda a rápida formação de um novo episódio de El Niño para o segundo semestre de 2026. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da agência norte-americana NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) indicam probabilidade superior a 90% de consolidação do fenômeno entre julho e dezembro, com possibilidade de um evento mais intenso.
O El Niño altera a circulação atmosférica global e costuma provocar irregularidade no regime de chuvas no Brasil, favorecendo episódios de chuvas intensas, ciclones extratropicais e frentes frias mais ativas no Sul e Sudeste, ao mesmo tempo em que aumenta o risco de secas prolongadas e ondas de calor em outras regiões.
Diante desse cenário, especialistas destacam que o Brasil entra em um novo ciclo climático marcado pela coexistência de frio intenso, seca, chuvas extremas e maior variabilidade atmosférica.