quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

ZIKA: PESTICIDA COLOCADO NA ÁGUA SERIA RESPONSÁVEL PELO SURTO DE MICROCEFALIA NO BRASIL

(Foto: Reprodução)
Um novo relatório teria reacendido o debate sobre o recente e misterioso surto de microcefalia, uma desordem neurológica rara que faz com que os recém-nascidos desenvolvam pequenos e anormais crânios e cérebros. Agora, imagina-se que a condição esteja relacionada aos pesticidas, e não à propagação do Zika – embora sem nenhum tipo de prova científica que indique isso.

O pesticida em questão é o piriproxifeno, larvicida baseado em piridina e utilizado para evitar a propagação do mosquito Aedes aegypti, produzido pela Sumitomo Chemical. “Na área onde as pessoas mais doentes vivem, um larvicida químico que produz malformações em mosquitos tem sido aplicado por 18 meses e este veneno (piriproxifeno) é aplicada pelo Estado em água potável usada pela população afetada”, afirma o relatório, publicado pelo grupo argentino Physicians in Crop-Sprayed Towns (PCST), na semana passada.

O grupo acrescenta (por opinião própria) que “não é uma coincidência” que os casos de microcefalia tenham se proliferado no Brasil, onde o pesticida está sendo usado. Na Colômbia, infecções de Zika não foram ligadas à microcefalia, apesar de haver a segunda maior incidência do vírus depois do Brasil. Mesmo aqui no Brasil, nem todos os casos de microcefalia têm sido associados à presença de Zika. “Depois de especialistas examinarem 732 casos, descobriram que mais da metade, ou não era microcefalia, ou não estava relacionado com Zika”, informou uma matéria realizada pelo The Washington Post, no mês passado.

Em resposta ao relatório, o governo do Rio Grande do Sul suspendeu o uso de piriproxifeno até novo aviso. “Decidimos suspender a utilização do produto na água potável, até que tenhamos uma posição do Ministério da Saúde. Assim, reforçamos ainda mais o apelo para que a população elimine qualquer possível criadouro do mosquito”, disse o porta-voz João Gabbardo dos Reis, secretário de Saúde do Estado.

Porém, enquanto alguns dizem que a evidência apoiando uma ligação entre o piriproxifeno e a microcefalia é evidente, outros estão chamando-a de “teoria da conspiração”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) está insistindo que o pesticida é seguro para utilização na água potável, desde que ministrado nos níveis recomendados.

Agora, existem evidências circunstanciais sugerindo que o contato de piriproxifeno com a água potável, no Brasil, poderia estar aumentando o risco de microcefalia. Esta ligação fica mais forte na ausência de um nexo de causalidade definitiva entre o distúrbio neurológico e o Zika.

Embora a OMS diga explicitamente que a ligação entre a microcefalia e os surtos de Zika ainda não tenha sido confirmada, pesquisadores estão trabalhando para que estejam 100% certos sobre as relações, mostrando como uma infecção pelo Zika pode causar alterações biológicas que perturbam seriamente o crescimento de um feto. “Ao contrário da relação entre o vírus Zika e a microcefalia, que teve a sua confirmação por testes que indicam a presença de vírus em amostras de sangue, tecido e fluido amniótico, a associação entre o uso de piriproxifeno e microcefalia não tem base científica. É importante ressaltar que algumas localidades que não usam piriproxifeno também relataram casos de microcefalia”, disse o governo brasileiro em resposta ao relatório da PCST.

De acordo com Donna Bowater, do portal The Telegraph, a OMS diz não haver uma ligação definitiva entre Zika e microcefalia, mas tal relação pode ser confirmada em breve. “Dois estudos separados na semana passada também encontraram evidências do Zika Vírus no tecido cerebral de fetos abortados ou bebês que morreram logo após o nascimento, que tinham microcefalia”, relatou ela.

O diretor do Controle e Doenças do Departamento de Saúde de Pernambuco, George Dimech, indicou à BBC que a cidade de Recife tem, atualmente, a maior quantidade relatada de casos de microcefalia e o pesticida não é usado na região – eles usam outro inseticida completamente diferente. A neurologista Vanessa van der Linden acrescentou: “Clinicamente, as mudanças que vemos nos exames de bebês sugerem que as lesões foram causadas por infecção congênita e não por larvicidas, medicamentos ou vacinas”.

Orac, em um artigo publicado no blog Respectful Insolence, aponta que “os seres humanos não produzem ou usam hormônios sesquiterpenos, que são os alvos do piriproxeno”, ao longo dos anos, grande parte da pesquisa foi realizada sobre toxicologia dentro de níveis seguros das propriedades físico-químicas do pesticida.

Até que exista uma evidência causal para estabelecer uma ligação entre a doença e um certo tipo de pesticida, a comunidade médica não poderá tirar conclusões não científicas, baseadas em evidências circunstanciais inconsistentes.

Atualização: A Rede Universitária de Ambiente e Saúde (Reduas) citou de maneira incorreta uma nota emitida pela Abrasco. De acordo com a BBC, a associação esclareceu que jamais afirmou que pesticidas, larvicidas ou qualquer produto químico sejam os responsáveis pela microcefalia. De acordo ainda com a nota emitida, eles apenas salientaram considerar perigoso o fato do controle do mosquito seja feito principalmente com larvicidas.

“A Abrasco (…) solicita prudência aos pesquisadores e à imprensa neste grave momento, pois todas as hipóteses devem ser investigadas antes de negá-las ou de confirmá-las”, afirma parte do comunicado.








Fonte: Jornal da Ciência