quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Manobra do PT nacional para enquadrar Paes atropela resolução do partido no Rio


O lançamento da pré-candidatura do secretário especial de Assuntos Federativos, André Ceciliano (PT), ao governo do Estado do Rio, com o possível respaldo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, provocou um abalo nas engrenagens internas do PT fluminense. O movimento, articulado no plano nacional, atropelou uma resolução política aprovada pela direção estadual no final de 2025 e sinalizou uma tentativa de impor, de cima para baixo, um acordo eleitoral no pleito fluminense entre o partido e o PSD do prefeito Eduardo Paes.

A decisão também reacende um traço histórico da relação de Lula com o Rio de Janeiro: a subordinação da política local aos seus interesses nacionais, especialmente eleitorais. Não é a primeira vez que o presidente intervém sem consultar previamente a militância ou as lideranças fluminenses.


Resolução recente indicava outro caminho

Divulgada em 26 de dezembro de 2025 nas redes sociais do PT-RJ, a resolução política da Executiva Estadual buscava organizar o partido após um ano marcado por disputas internas, agravadas pelo Processo de Eleições Diretas (PED) e por embates públicos entre figuras centrais da legenda.

O documento afirmava, logo no primeiro parágrafo, que a prioridade absoluta do partido em 2026 é a reeleição de Lula, seguida da eleição da deputada Benedita da Silva ao Senado e da ampliação das bancadas federal e estadual.

A resolução sinalizava disposição para construir uma frente com o prefeito Eduardo Paes (PSD), desde que baseada em compromissos programáticos claros, como a defesa de direitos sociais, o fortalecimento dos serviços públicos, a preservação ambiental e uma política de segurança pública voltada ao enfrentamento das cúpulas do crime organizado, com respeito aos direitos humanos.

Mas havia uma ressalva central caso a aliança não prosperasse: o PT não descartava candidatura própria e nem a construção de uma frente de esquerda, mantendo margem de manobra diante das indefinições do campo aliado.


Um partido em permanente ebulição

O pano de fundo da resolução era um ambiente de tensão interna. Ao longo de 2025, lideranças como Washington Quaquá, prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do partido, André Ceciliano e o deputado federal Lindbergh Farias trocaram acusações públicas.

Quaquá, que articulou a eleição do filho, Diego Zeidan, à presidência estadual do PT e sua nomeação como secretário de Habitação na gestão Eduardo Paes, passou o ano defendendo alternativas ao nome de Benedita da Silva para o Senado, contrariando a preferência de Lula e da militância. Flertou com o governador Cláudio Castro (PL), acenou para Alessandro Molon (PSB) e chegou a lançar o nome de Neguinho da Beija-Flor para a Corte Suprema do Legislativo Federal.

A resolução de dezembro buscava, justamente, encerrar esse ciclo de dispersão e recompor uma narrativa unificada para 2026. Envolveu os três grupos em embates constantes no interior da legenda: O grupo de Quaquà (pró Eduardo Paes), a Articulação de Esquerda (mais favorável à candidatura própria), e o que envolve o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, parlamentares da Alerj e da Camara Federal e políticos de Maricá (geralmente seguem Lula).

Lula muda o jogo e impõe nova lógica

O anúncio da pré-candidatura de Ceciliano, no entanto, altera substancialmente esse roteiro. Com o aval de Lula, o movimento cria um fato político novo e reordena as forças internas. Na prática, o gesto presidencial antecipa o debate sucessório e reduz o peso da resolução recém-aprovada, que previa escuta à militância, construção coletiva de programa de governo e definição posterior de candidaturas, caso a aliança com o PSD não vingasse.

Um padrão antigo no Rio

A intervenção de Lula no tabuleiro fluminense não é novidade. Em 1998, ainda como principal liderança nacional do PT, o então candidato à Presidência impôs Anthony Garotinho (PDT) na disputa pelo governo do estado, contrariando setores do próprio partido. Anos depois, já rompido com o petista, Garotinho classificaria o PT como “partido da boquinha”, em uma das críticas mais ácidas à legenda.

O episódio é frequentemente lembrado por dirigentes históricos como exemplo de que o Rio jamais foi prioridade estratégica para Lula, que sempre subordinou as alianças locais ao seu projeto presidencial.