Petistas próximos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificaram, nos últimos dias, a pressão para que o secretário de Assuntos Parlamentares do governo federal, André Ceciliano (PT), dispute o governo do Estado do Rio em 2026. A articulação ganhou força diante da expectativa de renúncia do governador Cláudio Castro (PL) para concorrer ao Senado, o que abriria caminho para uma eleição indireta na Assembleia Legislativa (Alerj) e colocaria Ceciliano no centro do tabuleiro político fluminense.
Mais do que uma disputa circunstancial, a possível candidatura é vista dentro do PT como estratégica para a construção de um palanque próprio e competitivo para Lula no Rio, movimento que pode representar, na prática, a ruptura da aliança informal com o prefeito Eduardo Paes (PSD).

Desconfiança em relação a Paes
No núcleo petista, cresce a avaliação de que Eduardo Paes não oferece garantias de apoio explícito a Lula numa eleição estadual marcada pela força da direita e do bolsonarismo. O Rio, afinal, tem histórico recente de votações majoritariamente conservadoras, o que tem levado o prefeito a adotar um discurso cada vez mais cauteloso e, segundo petistas, ambíguo em relação ao governo federal.
A desconfiança se agravou após declarações públicas do vice-prefeito Eduardo Cavaliere (PSD), considerado um dos principais quadros políticos de Paes. Em entrevista ao O Globo, no início de dezembro, Cavaliere criticou o que chamou de “lero-lero do PT” na área da segurança pública e defendeu que o prefeito mantenha neutralidade numa eventual disputa presidencial, como forma de ampliar pontes com setores da direita.
Embora a entrevista tenha sido publicada no mesmo dia da prisão do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), e tenha tido menor repercussão naquele momento, o conteúdo acendeu um sinal de alerta no PT.
Ceciliano, que presidiu a Alerj entre 2017 e 2022, tinha como plano inicial retornar ao Legislativo estadual e, eventualmente, disputar novamente o comando da Casa. A ideia conta com apoio da família e de aliados próximos. No entanto, a pressão da cúpula petista, liderada pela ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e pelo deputado federal Lindbergh Farias, vem mudando o cenário.
Um encontro com Lula, previsto para os próximos dias, deve ser decisivo. A avaliação é que lançar Ceciliano ao governo, ainda que num primeiro momento por meio da eleição indireta, permitiria ao PT retomar protagonismo no estado e reduzir a dependência de alianças consideradas instáveis.
Sinais de aproximação com a direita
O distanciamento entre Lula e Paes também é alimentado por movimentos do prefeito junto a setores da direita fluminense. Deputados relatam que dirigentes do PSD estariam articulando uma chapa estadual dissociada do projeto presidencial petista, nos moldes da chamada chapa “Aezão”, formada em 2014, quando o então governador Luiz Fernando Pezão (MDB) se alinhou a Aécio Neves (PSDB), contrariando a candidatura de Dilma Rousseff.
Segundo um parlamentar de centro-direita, o presidente estadual do PSD, Pedro Paulo, teria mencionado a organização de uma “chapa alternativa”, sem Lula como referência nacional, estratégia que reforça a leitura no PT de que Paes pretende ampliar seu espectro eleitoral à direita.
PT dividido no Rio
A discussão sobre Ceciliano também expõe uma divisão interna no PT fluminense. De um lado, está o grupo governista, formado por filiados que ocupam cargos na prefeitura do Rio e defendem a manutenção da aliança com Eduardo Paes como caminho mais pragmático para 2026. Do outro, um segmento mais à esquerda do partido sustenta que o PT precisa de candidatura própria ao governo do estado, ainda que isso implique confronto direto com o prefeito.
Nesse contexto, a eventual candidatura de Ceciliano surge como ponto de convergência para quem defende autonomia política e fidelidade ao projeto nacional do partido, mesmo ao custo de romper pontes com o aliado favorito à próxima eleição.
Há, inclusive, quem garanta que Lula e Paes não se encontram há cerca de três meses, sinalizando um esfriamento na relação. Se confirmada, a entrada de Ceciliano na disputa pode transformar esse distanciamento em ruptura aberta, redefinindo as alianças no xadrez político fluminense às vésperas d0 pleito de 2026.


