A Editora Record lança no Brasil a biografia ‘D. João VI – A história não contada’, novo livro do historiador Paulo Rezzutti que propõe uma revisão da imagem consagrada do monarca português. Resultado de mais de dez anos de pesquisa, a obra chega às livrarias em um momento simbólico: em 2026, completam-se 200 anos da morte de Dom João VI. Além da publicação brasileira, o livro já tem lançamento garantido em Portugal.
Parte da série ‘A história não contada’, o trabalho se debruça sobre a construção histórica da figura caricata e histriônica associada ao rei. Segundo a pesquisa apresentada por Rezzutti, essa imagem foi alimentada, sobretudo, por intrigas políticas, em especial de franceses inconformados com a transferência da corte portuguesa para o Brasil. A biografia busca, assim, desvendar o governante absolutista para além dos estereótipos que o acompanharam ao longo dos séculos.
Conhecido popularmente como um monarca fraco e excessivamente glutão, Dom João VI é apresentado no livro como um líder de agudeza política, marcado por capacidade de adaptação e espírito conciliador. De acordo com a obra, o rei foi pioneiro ao enxergar a América como espaço estratégico para o futuro do império português, em um contexto em que o pensamento dominante ainda era fortemente eurocêntrico.
Em um dos trechos destacados do livro, Rezzutti convida o leitor a rever conceitos cristalizados sobre o personagem histórico: “convido o leitor […] a conhecer, com olhos despidos de prejulgamentos, esse governante tão subestimado e embarcar nesta aventura entre dois países unidos por um monarca que ousou transferir o centro do seu poder da Europa para a América, algo inédito até então. Contudo, se a união entre os dois países foi efêmera, ao menos d. João garantiu que sua dinastia governasse em ambos os lados do Atlântico por décadas após a sua morte.”
Trajetória de Dom João VI
A narrativa acompanha a trajetória de Dom João desde o nascimento até a ascensão ao trono, detalhando os desafios enfrentados para se manter no poder em um período de intensas transformações políticas. O livro dedica atenção especial à decisão de transferir a corte portuguesa para o Brasil, motivada pelas ameaças de Napoleão Bonaparte. O movimento, considerado ousado, transformou o Rio de Janeiro na primeira capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e teve impactos duradouros na história luso-brasileira.
Segundo a obra, as escolhas do monarca foram pautadas por cautela e cálculo estratégico, alterando de forma decisiva os rumos do império. A biografia também se propõe a ampliar o olhar sobre fases menos conhecidas da vida de Dom João VI, especialmente após seu retorno a Portugal — um período frequentemente pouco abordado no Brasil.
Nesse trecho da trajetória, Rezzutti apresenta episódios como movimentos golpistas contra o governo do rei, que envolveram figuras centrais da família real, incluindo um de seus filhos e a própria esposa, a rainha Carlota Joaquina. A obra também aborda a atuação de Dom João VI em defesa dos escravizados e revisita versões consagradas de acontecimentos históricos, como o suposto envenenamento que teria causado sua morte, tradicionalmente associado à rainha.
Ao situar o lançamento na efeméride dos 200 anos de morte do monarca, o livro busca reafirmar o legado de Dom João VI como um governante que enfrentou desafios próprios de um mundo em transição. A pesquisa se apoia em cartas, jornais e materiais de arquivo, oferecendo novas perspectivas sobre uma figura central da história de Portugal e do Brasil e apresentando sua atuação de forma mais complexa e contextualizada.
Autor da obra, Paulo Rezzutti é paulistano e assina mais de dez livros dedicados à história do Brasil e do mundo, com foco em biografias. Já publicou livros relacionados a Dom Pedro I e Dom Pedro II, Maria Leopoldina e Domitila de Castro Canto e Melo. Membro de institutos históricos em São Paulo, Petrópolis e Campos dos Goytacazes, ele venceu o Prêmio Jabuti de Literatura em 2016 e foi finalista em outras edições na categoria Biografia. Além dos livros, atua na divulgação histórica em seu canal no YouTube desde 2017 e recebeu, em 2021, o Prêmio Descobertas do Ano da revista Aventuras na História.


