O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) procurou o então banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, para pedir que ele recebesse um contato de Thiago Rodrigues de Faria, advogado e ex-assessor de seu gabinete, interessado em uma negociação envolvendo um ativo minerário. A conversa ocorreu em março de 2025 e incluiu áudios e mensagens trocados entre o parlamentar e o empresário. A informação foi revelada pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, que teve acesso à troca de mensagens.
Em um áudio enviado em 30 de março daquele ano, Nikolas trata Vorcaro como “Dani” e explica que Faria, descrito por ele como amigo, advogado e “irmão”, havia mencionado um ativo relacionado à mineração. O deputado afirma ainda que gostaria de ter maior proximidade com o banqueiro.
Vorcaro respondeu ao pedido
Após receber a mensagem, Vorcaro respondeu minutos depois com um áudio de visualização única. Nikolas, então, agradeceu e encaminhou o contato de Thiago Faria.
Na sequência, o banqueiro escreveu: “Amém irmão. Estamos na guerra juntos”. Nikolas respondeu que iria “dar banho na pequena agora” e acrescentou: “pra amanhã voltar pra guerra”. A conversa terminou com Vorcaro orientando para “Thiago me chamar”.
No dia seguinte, 1º de abril de 2025, o deputado voltou a falar com o banqueiro e informou que Faria estaria em Brasília e que “qualquer horário ele estará disponível”. Vorcaro respondeu um dia depois: “Deixa comigo”.
As mensagens apresentadas não permitem determinar se o pedido resultou efetivamente em algum negócio ou se Vorcaro tomou alguma providência para ajudar Faria.
Nikolas pediu desculpas por crítica anterior
Na mesma conversa, Nikolas também retomou um episódio ocorrido em 2024. Na ocasião, o deputado havia feito uma publicação criticando um evento realizado em Londres, financiado pelo Banco Master e que teve a participação de ministros de tribunais superiores.
Ao falar com Vorcaro, o parlamentar afirmou que havia conversado sobre o assunto com o pastor André Valadão e voltou a demonstrar arrependimento pela publicação.
“Troquei ideia lá com o Pastor Valadão naquela época, lá naquela postagem, eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o Banco do Dani etc. e tudo, se não, obviamente eu não teria postado, já teria conversado anteriormente’, mas enfim, acabou que a palavra dita não tem como voltar, né? Mas espero que tenha sido esclarecido, enfim, depois vamos marcar da gente se encontrar também, tá bem? Um abraço, lindão”, disse Nikolas a Vorcaro.
A reportagem do ICL enviou cinco perguntas a Thiago Faria sobre o assunto. O ex-assessor afirmou que Nikolas estava em campanha e que não iria incomodá-lo para tratar dos questionamentos. Em áudio, também minimizou o teor do que foi perguntado:
“Essas perguntas são nada a ver”, disse.
Em seguida, Faria explicou sua relação com o setor de mineração e afirmou conhecer Vorcaro por ambos serem de Belo Horizonte.
“O Vorcaro é de Belo Horizonte e eu sou de Belo Horizonte e a gente conhece todo mundo. Uma vez eu, enfim, tinha um ativo minério porque eu trabalho nessa área de mineração e mandei um ativo minerário pra todo mundo de um contrato que todo mundo sabe que já saiu de uma pessoa que teve um problema e ao qual eu nunca fui chamado para depor na PF porque eu não tenho nada a ver com isso”, finalizou Faria.
Ex-assessor apareceu em investigação da Operação Rejeito
Meses depois da troca de mensagens, o nome de Thiago Rodrigues de Faria apareceu relacionado a empresas e investigados na Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025. A Polícia Federal prendeu preventivamente 22 pessoas durante a investigação de um suposto esquema criminoso envolvendo extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Segundo informações atribuídas à investigação e divulgadas pelo jornal Estado de Minas, Faria teria atuado como intermediário em uma negociação envolvendo uma lavra de minério e empresas investigadas pela PF, entre elas a Gmais Ambiental.
A Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia mantinha, segundo a investigação, contrato firmado em janeiro de 2025 com a Gmais. O acordo previa remuneração ligada ao resultado de uma possível negociação caso uma área voltasse a receber autorização para mineração e a lavra fosse posteriormente vendida.
O inquérito da PF registra valores expressivos relacionados à negociação:
“Chamaram a atenção os valores prováveis da negociação sobre os quais os apresentantes seriam remunerados. O valor inicial era de US$ 30.000.000,00 podendo ultrapassar os US$ 45M, valor que geraria 20% de comissão aos parceiros Gmais, Estabil escritório contábil e Thiago Rodrigues advocacia”, diz um trecho do documento.
Negociação envolvia direitos minerários
O negócio também envolvia a Topázio Imperial, empresa detentora de direitos minerários sobre uma lavra associada à barragem Água Fria, apontada como uma das estruturas de maior risco de Minas Gerais. À época dos fatos descritos, a operação estava paralisada por atuação do Ministério Público Federal.
De acordo com a PF, o grupo investigado pretendia vender a lavra da Topázio para exploração mineral. Para concretizar a negociação, porém, seria necessário regularizar a situação da empresa responsável pelos direitos de lavra em Ouro Preto, no distrito de Rodrigo Silva.



