O Governo Federal colocou à venda um dos edifícios mais simbólicos da história das comunicações brasileiras, construído no Segundo Reinado. A antiga sede nacional do Correio Geral, na Rua Primeiro de Março, 64 – antiga Rua Direita – será leiloada no próximo dia 30 de julho, em meio à mais grave crise financeira enfrentada pelos Correios em muitos anos. É o que mostra o site VIP Leilões, onde também podem ser encontrados vários outros imóveis da estatal à venda, como a antiga agência filatélica da rua da Quitanda, junto à Assembléia.
Mas não se trata de mais um imóvel administrativo incluído numa lista de desmobilização patrimonial. Erguido ainda durante o Império, o prédio foi construído especificamente para abrigar os serviços postais brasileiros e, durante quase um século e meio, permaneceu associado à própria imagem dos Correios no país. É, para a estatal, algo comparável ao que a sua sede histórica representa para a Santa Casa da Misericórdia ou o que um antigo palácio legislativo representa para a instituição que nele funcionou.
A decisão de aliená-lo é tomada pelo Governo Federal depois de uma rápida deterioração dos resultados da empresa. Os Correios apresentaram lucros entre 2019 e 2021, voltaram ao vermelho em 2022 e passaram a acumular perdas cada vez maiores nos anos seguintes. Em 2024, o prejuízo chegou a aproximadamente R$ 2,45 bilhões. Em 2025, saltou para cerca de R$ 8,46 bilhões.
É nesse cenário que o edifício eclético de cinco pavimentos vizinho ao CCBB e à Casa Brasil – entre outros imóveis notáveis do Conjunto Tombado Nacional da Praça XV – vai a leilão. O imóvel possui área construída estimada em 9.059,81 metros quadrados e terreno de 1.585,30 metros quadrados. Ocupa sozinho todo um quarteirão delimitado pelas ruas Primeiro de Março, do Rosário e Visconde de Itaboraí, além da Travessa Tocantins, próximo ao mar e ao Polo Gastronômico.
O valor inicial de venda foi fixado em R$ 53.598.124,72. Caso não apareça comprador nas primeiras etapas, o imóvel poderá chegar à terceira rodada com lance mínimo de R$ 47.798.383,94. O edital informa ainda que existem pendências de regularização registral e divergências entre as áreas constantes do cadastro municipal e do registro imobiliário. Essas providências, assim como os respectivos custos, ficarão sob responsabilidade do futuro comprador.
O prédio integra o conjunto histórico protegido do Centro do Rio e qualquer intervenção, mudança de uso ou retrofit dependerá da aprovação dos órgãos responsáveis pela preservação. Isso significa que, independentemente de quem venha a adquiri-lo, sua arquitetura deverá ser respeitada.
Isso não significa que a transferência à iniciativa privada seja necessariamente uma condenação. Um novo proprietário pode justamente oferecer ao prédio o investimento e o uso que o poder público deixou de garantir. A questão levantada pela venda é outra: se o Governo Federal deveria mesmo abrir mão daquele que é sem sombra de dúvida o maior símbolo arquitetônico da história dos Correios no Brasil.
PETRÓPOLIS
Construído no início do período republicano e inaugurado em 1922 pelo presidente Epitácio Pessoa, o antigo Palácio dos Correios de Petrópolis, na Rua do Imperador, foi colocado à venda pela estatal como parte do Plano de Reestruturação da empresa. Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o imóvel enfrenta um longo processo de deterioração e abandono.
A venda será realizada na modalidade de venda direta, destinada prioritariamente a órgãos das administrações federal, estadual e municipal. A agência dos Correios que ainda funciona nos fundos do edifício será transferida para outro endereço.
Considerado um dos marcos arquitetônicos do Centro Histórico de Petrópolis, o prédio foi erguido em uma época em que os Correios e Telégrafos simbolizavam a modernização do país, o que levou à construção de sedes monumentais em diversas cidades brasileiras. A fachada preserva colunas em estilo neoclássico, enquanto o interior ainda mantém lustres originais.
O Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Rio de Janeiro denuncia há mais de uma década a necessidade de obras de recuperação no imóvel. Após uma representação ao Ministério Público Federal, o prédio chegou a ser interditado e os Correios foram obrigados a apresentar medidas para restaurar a estrutura. Segundo a entidade, porém, as intervenções necessárias nunca foram executadas.
A história dos Correios em Petrópolis é ainda mais antiga. Em 1º de outubro de 1848, Dom Pedro II assinou o decreto que implantou o serviço postal na cidade, um dos primeiros do país.



