Durante décadas, estudos, livros e bancos de dados internacionais repetiram que a economia brasileira havia crescido muito pouco durante o Império. O fato causava estranheza em quem lia sobre a pujante exportação de café e sobre a estabilidade econômica e prosperidade de grande parte do período imperial em fontes mais históricas do que econômicas, e na literatura. Mas segundo as estatísticas que eram tidaa como reais até agora, a renda por habitante teria avançado somente 0,3% ao ano entre 1850 e 1889, desempenho difícil de conciliar com a expansão do café, o desenvolvimento das ferrovias, o crescimento das cidades, a ampliação do comércio e a modernização observada durante o bem sucedido reinado de Dom Pedro II.
Agora, uma nova e verdadeiramente minuciosa pesquisa da Fundação Getulio Vargas mostra agora que a economia do Brasil Imperial cresceu, na realidade, quatro vezes mais do que se dizia.O trabalho é do professor Thales Zamberlan Pereira, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, e foi publicado em 19 de maio de 2026 pela European Review of Economic History, revista científica da Universidade de Oxford e da European Historical Economics Society. O artigo, intituladoInflation and Economic Growth in Imperial Brazil — 1824-1889, foi recebido em maio de 2025, revisado e finalmente aceito pela comunidade científica agora em março de 2026.
Com um novo e minucioso índice de preços, construído a partir de uma extensa é inédita pesquisa por mais de 20 mil cotações mensais, Pereira concluiu que a renda por habitante no Brasil aumentou aproximadamente 1,2% ao ano entre 1850 e 1889 — e não apenas os irrisórios 0,3%, como apontavam as estimativas tradicionalmente utilizadas.
Não se trata de uma alteração pequena. A taxa quadruplicada muda completamente a posição brasileira nas comparações internacionais e coloca o crescimento do Império em linha com a média da América Latina naquele período, e finalmente casa a estatística econômica com a literatura e a história política. O interessante é que o próprio DIÁRIO ajudou a contar essa história: a descoberta tem um sabor especialmente carioca — e particularmente especial para o Diário do Rio.
Para reconstruir os preços praticados durante o Império, o pesquisador recorreu principalmente a jornais publicados na Corte. Nas décadas de 1820 e 1830, sua fonte principal foi o próprio Diário do Rio de Janeiro, em sua fase original do século XIX. Para os anos posteriores, o estudo utilizou predominantemente o Jornal do Commercio, recorrendo ainda a outros periódicos para preencher eventuais lacunas.
Assim, anúncios e cotações publicados nas páginas do Diário há quase dois séculos acabaram ajudando a corrigir uma das interpretações mais repetidas sobre a economia do Brasil Imperial.
Fundado em 1º de junho de 1821, antes mesmo da Independência, o Diário do Rio de Janeiro foi o primeiro jornal diário do Brasil. Barato e acessível, ganhou o apelido de “Diário da Manteiga”, porque custava aproximadamente o preço de uma pequena porção do produto.
Também publicava uma quantidade extraordinária de anúncios, classificados, avisos comerciais e ofertas de produtos. Era uma espécie de grande guia da vida cotidiana e econômica do Rio de Janeiro: quem procurava uma mercadoria, um serviço, um imóvel, até mesmo um escravo ou uma informação comercial na Corte encontrava suas respostas no Diário.
Há um paralelo curioso com a fase contemporânea do jornal. O antigo Diário era barato, amplamente difundido e financiado por uma profusão de anúncios. O atual é gratuito e também se sustenta com publicidade digital, banners, vídeos e aqueles anúncios que, para desespero de alguns leitores, acompanham o jornalismo gratuito na internet. Mudaram o século, a tecnologia e o formato; permaneceu, em alguma medida, o modelo de um jornal carioca acessível, popular e intimamente ligado à atividade comercial da cidade.
O que parecia efêmero em 1824 tornou-se documento inestimável em 2026. Preços publicados para orientar comerciantes e compradores da Corte atravessaram dois séculos e permitiram a Thales Pereira reconstruir, mês a mês, parte importante da economia brasileira.
E agora o próprio Diário, em sua fase contemporânea, conta o que as páginas de sua primeira fase ajudaram a revelar.
Onde estava o erro
Para entender a importância da descoberta, é preciso compreender como os estudiosos calculam o crescimento econômico do passado.
Os registros históricos podem mostrar quanto a produção ou a renda aumentaram em valores monetários. Mas, para descobrir quanto desse avanço foi real, é necessário descontar a inflação. Se os preços subiram muito, parte do crescimento nominal não representa aumento verdadeiro da produção.
Por isso, o índice de preços utilizado é decisivo.
Segundo Thales Pereira, as séries equivocadamente adotadas durante décadas para calcular a inflação do século XIX apresentavam graves distorções. Algumas utilizavam poucos produtos; outras mudavam a composição da cesta ao longo dos anos – comparando literalmente, alhos com bugalhos. Havia ainda índices excessivamente concentrados em alimentos e produtos agrícolas – até por conta possivelmente, da eterna forçação de barra pra ignorar o nascimento, ainda que incipiente, da indústria nacional – deixando de fora mercadorias manufaturadas cujo preço diminuiu ao longo do século. O resultado foi calcularem tudo com uma inflação muito maior no papel do que aquela que efetivamente ocorreu.
O estudo demonstra portanto que as séries anteriores superestimavam a inflação acumulada em proporções que variavam entre 57% e 270%. Como essa inflação artificialmente elevada era descontada da renda nominal do país, o crescimento real da economia imperial aparecia muito menor. Em outras palavras: a economia produzia e enriquecia mais do que as estatísticas antigas – e erradas – conseguiam enxergar.
De 0,3% para 1,2% ao ano
A diferença fica evidente na comparação internacional utilizada pelo pesquisador. Pelas estimativas tradicionais, a renda por habitante no Brasil teria crescido apenas 0,3% ao ano entre 1850 e 1889. O país aparecia muito atrás de vizinhos como Argentina, Chile, Uruguai e Colômbia. Com o novo índice, o crescimento brasileiro sobe para 1,2% ao ano, o que parece incrível para um país de dimensões continentais e ainda em consolidação, com dificuldades de transporte de mercadorias e interligação de territórios que não tinham – e não têm – par entre os vizinhos.
A Argentina teria crescido 2%; o Chile, 1,8%; os Estados Unidos, 1,6%; o Uruguai, 1,3%; o Brasil, 1,2%; e a Colômbia, 1%. O desempenho do imenso território brasileiro passa, portanto, a acompanhar o ritmo médio observado na América Latina, mesmo em países menores que o estado do Pará.
A nova conta também resolve uma contradição histórica que há muito chamava a atenção: como um país que atravessava uma expansão quase contínua das exportações de café desde os anos 1840 poderia registrar crescimento próximo de zero? Toda a literatura sobre os Barões, Ferrovias, Estaleiros e exportação seriam fantasiosos? Isso sem contar a rica economia do charque, no Sul do País.
As antigas estimativas não combinavam com a expansão do comércio exterior nem com outras evidências de desenvolvimento econômico. A pesquisa de Pereira mostra que o problema não estava na economia imperial, mas nos instrumentos estatísticos empregados posteriormente para medi-la. Com amostra ruim, não há pesquisa que tenha resultado bom.
Aquilo que muitos monarquistas, estudiosos e admiradores do período imperial sustentavam com base nas transformações visíveis do Brasil oitocentista recebe agora uma demonstração estatística robusta: a economia do Império cresceu muito mais do que se dizia: o quádruplo.
Tecidos que ficaram mais baratos mudaram a conta
Uma das principais inovações do trabalho foi incluir produtos manufaturados e importados, especialmente os tecidos de algodão..
Os índices anteriores davam enorme peso aos gêneros agrícolas, mas não acompanhavam adequadamente mercadorias industrializadas que já faziam parte do consumo cotidiano do brasileiro. Isso distorcia profundamente a cesta porque, ao longo do século XIX, muitos desses produtos ficaram mais baratos.
A industrialização europeia elevou a produtividade, enquanto a melhoria da navegação e a queda dos custos dos fretes reduziram o preço de diversas importações. Os tecidos de algodão tinham particular importância: respondiam por aproximadamente 30% das importações de mercadorias estrangeiras brasileiras entre 1846 e 1867, segundo os dados utilizados no artigo.
Quando se excluem produtos que baratearam e se concentra o cálculo naqueles que encareceram, o índice inevitavelmente apresenta uma inflação exagerada.
Pereira corrigiu essa deficiência ao reunir preços mensais de vinte mercadorias, abrangendo todo o período entre 1824 e 1889. A quantidade e a regularidade das observações permitiram construir uma série muito mais completa do que as anteriores.
Os arquivos das irmandades católicas do Rio
A pesquisa também recupera e examina a longa tradição de estudos sobre o custo de vida no Rio de Janeiro, tradição que deve muito aos arquivos de duas instituições católicas cariocas: a irmandade da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro e a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Uma nascida em 1584 e a outra em 1609, e ambas atuantes e existentes até os dias de hoje. Aliás, passando ambas por momento de revitalização.
A historiadora Eulália Maria Lahmeyer Lobo produziu uma das séries de preços mais importantes sobre o século XIX utilizando documentos primários dessas duas instituições e, a partir de 1840, informações publicadas pelo Jornal do Commercio, que circulou no Rio até a década passada.
Seu levantamento reunia preços de nove produtos, entre eles carne-seca, feijão-preto, manteiga, bacalhau, café, arroz, açúcar e farinhas de mandioca e trigo. Embora o novo artigo identifique limitações metodológicas na forma como essa série foi posteriormente empregada, o trabalho só foi possível porque contratos, despesas, compras e registros administrativos haviam sido cuidadosamente conservados.
Esses arquivos mostram que as antigas irmandades religiosas não preservaram somente objetos sacros, obras de arte, sepulturas, edifícios e a memória da Igreja Católica no Rio. Seus livros de contas e documentos administrativos guardaram também uma parte insubstituível da história econômica da cidade e do país. Muito subestimadas em sua importância histórica, estas entidades que até hoje têm grande presença urbana têm arquivos valiosíssimos.
A Santa Casa, fundada ainda no período colonial, administrava hospitais, imóveis, cemitérios, obras assistenciais e um vasto patrimônio. A Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência – dona da igreja dita “de ouro” no alto do Morro de Santo Antônio, que também tinha hospitais e cemitérios, é uma das mais tradicionais instituições católicas do Rio, também deixou documentação abundante sobre suas compras, propriedades, pagamentos e atividades.
Cada anotação de farinha, carne, manteiga ou tecido, feita originalmente para controlar despesas, tornou-se uma janela para os preços e o comércio da antiga Corte.
Ao lado dos jornais, esses acervos católicos ajudaram a formar a base documental sobre a qual sucessivas gerações de historiadores construíram e agora aperfeiçoam as contas do Brasil Imperial.
A inflação se concentrou nos anos 1850
O novo índice não afirma que os preços permaneceram imóveis durante todo o Império. Ele mostra algo mais preciso: a inflação não cresceu continuamente entre 1824 e 1889, como davam a entender equivocadamente algumas séries anteriores.
Os preços ficaram relativamente estáveis durante as décadas de 1830 e 1840. Houve uma elevação forte na década de 1850, seguida por nova estabilidade entre os anos 1860 e 1880.
O grande aumento dos anos 1850 esteve associado a mudanças no mercado de trabalho, à elevação do preço dos escravos e ao crescimento da procura internacional por produtos como café e açúcar. A expansão exportadora tornou essas atividades mais atraentes, retirando parte da mão de obra de outros setores e pressionando temporariamente a produção e o preço dos alimentos.
Mas a própria economia reagiu.
Produtores ampliaram a oferta, e regiões como Rio Grande do Sul e Santa Catarina fortaleceram seu papel de fornecedoras de alimentos para o Rio de Janeiro, a Bahia e Pernambuco. A especialização regional ajudou a normalizar o abastecimento e a conter o avanço dos preços após a década de 1850.
Essa capacidade de reação é outro ponto importante do estudo: diante do aumento dos preços, a produção se reorganizou e cresceu, em vez de permanecer indefinidamente paralisada.
Café, comércio e condições mais favoráveis
A nova pesquisa também reconstrói as chamadas relações de troca do Brasil — a comparação entre os preços do que o país exportava e os preços do que importava.
Os resultados indicam uma melhora significativa a partir da década de 1840, impulsionada pela valorização e expansão das exportações de café e pela redução dos preços de diversas mercadorias importadas.
O Brasil passou a receber mais por aquilo que vendia ao exterior e a pagar cada vez menos por parte do que comprava. Essa evolução é compatível com o crescimento maior da renda por habitante encontrado pelo novo índice.
O estudo acrescenta ainda dados segundo os quais os salários reais de trabalhadores qualificados começaram a subir bastante já na primeira metade do século XIX, reforçando a conclusão de que a economia imperial apresentava um grande dinamismo que as estatísticas tradicionais não conseguiam captar adequadamente.
Uma descoberta feita com a memória do Rio
O trabalho de Thales Zamberlan Pereira tem mérito não apenas pela conclusão a que chegou, mas pela dimensão da tarefa realizada.
Construir um índice para um período anterior às pesquisas modernas de orçamento familiar exige examinar milhares de edições de jornais e arquivos de irmandades, identificar produtos comparáveis, distinguir preços de varejo e atacado, lidar com mudanças de medida, preencher lacunas e testar diferentes composições de cesta.
O autor também comparou sua série com índices anteriores, dados de Pernambuco e da Bahia, salários, fretes marítimos, câmbio, comércio entre províncias e preços internacionais.
O resultado foi publicado após o processo de avaliação acadêmica da European Review of Economic History. A versão final registra que o artigo foi recebido em 31 de maio de 2025, revisado em 9 de janeiro de 2026, aceito em 19 de março e publicado em 19 de maio. Mas, por trás dos cálculos modernos, estão documentos produzidos e preservados no Rio de Janeiro.
Estão as páginas do Diário do Rio de Janeiro, que anunciava de tudo e registrava diariamente a pulsação comercial da Corte. Estão as cotações do Jornal do Commercio. Estão os livros e documentos da Santa Casa da Misericórdia e da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Essas fontes sobreviveram a mudanças de regime, crises, incêndios, demolições, mudanças urbanas e ao próprio passar dos séculos.
Agora, reunidas pelo trabalho de um pesquisador da FGV, ajudam a demonstrar uma realidade que permaneceu escondida por índices defeituosos: entre 1850 e 1889, a economia do Brasil Imperial cresceu quatro vezes mais do que se dizia.
E coube às velhas páginas do Rio ajudar a contar essa nova história.




