segunda-feira, 16 de março de 2026

Petrópolis 183 anos: turismo como destino


As transformações políticas, econômicas, logísticas e até climáticas modificaram profundamente a vida das cidades brasileiras ao longo dos últimos 2 séculos. Nesse período, o Brasil deixou de ser Império de forma abrupta e, após uma curta ditadura instaurada por um golpe militar, encontrou um caminho democrático na chamada República Velha. Esse ciclo foi seguido por novos períodos autoritários que, com pequenas interrupções, estenderam-se até meados da década de 1980.

Esse panorama político é apenas um dos fatores que influenciam a evolução das cidades. No caso de Petrópolis, sua história urbana esteve profundamente ligada ao papel que desempenhou durante o período imperial. Ao longo de cinco décadas, o imperador Dom Pedro II passou cerca de sete meses por ano na cidade, transformando-a na principal residência de verão da corte e, de fato, em uma extensão do centro político do país.


Com o fim do Império em 1889, essa função desapareceu. Posteriormente, durante o governo de Getúlio Vargas, Petrópolis voltou a receber com frequência chefes de Estado. Contudo, a transferência da capital federal para Brasília consolidou o declínio dessa centralidade política.

Paralelamente, transformou-se também o antigo hábito do veraneio. No passado, famílias inteiras estabeleciam-se longos períodos na cidade, vivendo intensamente sua vida social e cultural. Hoje, em grande medida, esse costume foi substituído por visitas rápidas de fim de semana: chega-se à casa de campo, encontram-se amigos, pratica-se algum esporte ou lazer e, em seguida, retorna-se ao Rio de Janeiro ou a outras cidades próximas. Isso gera algum movimento comercial, mas limitado.


Ao longo do tempo, Petrópolis tentou diversificar suas vocações. Houve momentos em que se destacou como cidade de hotéis sofisticados; em outros, como cidade de sanatórios ou de colégios tradicionais. Mais recentemente, passou a integrar de forma crescente a dinâmica metropolitana do Rio de Janeiro, funcionando em parte como cidade-dormitório, com intenso fluxo diário de moradores que trabalham na capital.

Diante desse cenário, impõe-se uma reflexão estratégica: qual deve ser a vocação principal de Petrópolis para o próximo século?

Há propostas diversas tornar-se polo de tecnologia, cidade universitária ou centro de atividades ao ar livre para os habitantes da grande metrópole. Todas essas possibilidades têm valor e certamente continuarão a existir. No entanto, possuem dinâmicas econômicas próprias e tenderão a desenvolver-se naturalmente na escala que o mercado determinar.


O que parece realmente urgente é assumir com clareza a vocação de Petrópolis como cidade eminentemente turística.

Assumir esse destino significa articular esforços do poder público municipal, estadual e federal para dotar a cidade das condições necessárias: infraestrutura adequada, atrações qualificadas e um ambiente capaz de atrair investimentos. Em outros momentos da história, esse fluxo de capital foi significativo. Hoje, porém, ele se dirige a outros destinos no Brasil.


Para reverter esse quadro, é possível identificar alguns vetores estratégicos de desenvolvimento turístico.

O primeiro deles é o patrimônio histórico tangível do período imperial. Trata-se de um legado material de grande valor cultural, que testemunha o período em que o Brasil foi Império, de 1822 a 1889. Esse passado encontra expressão em documentos, tradições e, sobretudo, na preservação de espaços que guardam a memória daquele tempo. Entre eles destaca-se o Museu Imperial de Petrópolis, antiga residência de verão de Dom Pedro II, além de diversas casas históricas, como a Casa do Colono, e inúmeras residências que preservam a atmosfera daquele período. Petrópolis é a única cidade imperial das Américas, um exemplo de planejamento sem igual plantado nos trópicos.


O segundo vetor é o extraordinário patrimônio arquitetônico da cidade, que vai muito além das construções imperiais. Petrópolis reúne uma impressionante diversidade de estilos: casas italianadas, edificações de inspiração alemã, construções normandas, exemplares coloniais, sobrados da fase republicana, obras da arquitetura moderna brasileira e até residências contemporâneas de grande qualidade. Esse acervo, ainda pouco conhecido e pouco divulgado, deve ser protegido pois transforma a cidade em um verdadeiro mostruário da evolução da arquitetura doméstica urbana no Brasil, um caráter diferenciado que tanto nos orgulha. Alguns edifícios públicos também merecem destaque, como a sede histórica dos Correios e a agência do Banco do Brasil. Em muitos desses casos, a arquitetura foi concebida como parte integrante do espaço urbano, destinada não apenas a quem utiliza o edifício, mas também à fruição estética de quem circula pelas ruas. Assim, a arquitetura desempenha uma autêntica função civilizatória.

O terceiro vetor ainda pouco explorado é a criação de uma infraestrutura robusta para eventos culturais e profissionais. Isso inclui a constituição de uma rede de auditórios, espaços para espetáculos, áreas destinadas a grandes eventos ao ar livre e um moderno centro de convenções conectado ao mundo por tecnologia digital. Tal estrutura permitiria sediar congressos, encontros acadêmicos, festivais culturais e eventos internacionais, reduzindo a sazonalidade do turismo e mantendo fluxo constante de visitantes.

Esse sistema poderia sustentar um calendário anual de eventos: festivais de cinema, música, dança e artes cênicas, capazes de atrair público nacional e internacional.

O quarto vetor decorre dos anteriores: uma rede ampla e qualificada de hospitalidade. Hotéis de diferentes categorias, pousadas bem estruturadas, serviços de qualidade e mão de obra altamente treinada são elementos essenciais. Isso implica investir em formação técnica guias turísticos, profissionais de hotelaria, serviços de restaurante e atendimento ao visitante. A meta deve ser clara: que qualquer visitante possa permanecer entre dois e sete dias na cidade encontrando programação variada durante toda a sua estadia.


Experiências internacionais mostram que isso é possível. Nos Estados Unidos, por exemplo, a cidade de Charleston transformou-se em um importante destino turístico com base em seu patrimônio histórico. Hoje, orgulha-se de apresentar-se como “the second honeymoon destination in America”, um verdadeiro negócio urbano baseado na valorização de sua história e de seu ambiente urbano. Outro exemplo é Stratford-upon-Avon, na Inglaterra, cidade associada ao dramaturgo William Shakespeare. Ali, a programação contínua de atividades teatrais e culturais sustenta uma economia turística robusta e reconhecida internacionalmente.

No Brasil, experiências bem-sucedidas também podem servir de referência, como o caso de Gramado, que consolidou sua identidade turística por meio de planejamento, eventos culturais e forte investimento em hospitalidade.

Evidentemente, Petrópolis não precisa copiar nenhum desses modelos, mas pode inspirar-se neles para construir seu próprio caminho.

Se o turismo se tornar o eixo estratégico da cidade, outras vocações poderão florescer naturalmente ao seu redor: tecnologia, universidades, produção cultural, artes e inovação. Todas essas atividades tendem a prosperar quando inseridas em um ambiente urbano dinâmico, atraente e economicamente ativo.

O essencial é concentrar esforços públicos e privados na construção dessa grande estrutura algo que hoje praticamente não existe no Brasil para uma cidade de porte médio como Petrópolis.

Ao assumir com clareza essa vocação, a cidade poderá iniciar uma nova fase de desenvolvimento, baseada em sua história, em sua cultura e em sua capacidade de receber visitantes do Brasil e do mundo.

O turismo, nesse caso, não será apenas uma atividade econômica: será o eixo em torno do qual se organizará o futuro de Petrópolis.