Uma fotografia da missa campal realizada após a assinatura da Lei Áurea foi encontrada em um museu no interior da França e lança nova luz sobre um dos episódios mais marcantes da história do Brasil. O registro, produzido em 17 de maio de 1888 pelo fotógrafo amador Antônio de Barros Araújo, permaneceu esquecido por mais de um século no acervo do Castelo d’Eu, residência da família imperial brasileira no exílio após a Proclamação da República.
A imagem foi descoberta pelo historiador Carlos Lima Junior, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante pesquisa de pós-doutorado sobre obras brasileiras preservadas na França. Segundo ele, a fotografia estava coberta de poeira quando foi localizada. O pesquisador identificou rapidamente que se tratava de um segundo registro, até então desconhecido, da grande missa celebrada quatro dias após a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel.
Com cerca de 49 centímetros de largura por 11,5 de altura, a fotografia mostra uma multidão reunida na praça Pedro I, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Estima-se que aproximadamente 50 mil pessoas participaram da cerimônia. Diferente da imagem mais conhecida do evento, feita por Antônio Luiz Ferreira e atualmente pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles, o novo registro privilegia a participação popular e destaca detalhes do cotidiano da celebração.
O artigo publicado por Carlos Lima Junior na Revista de História da Arte e da Cultura da Unicamp aponta que a missa teve papel importante na construção da imagem da princesa Isabel como “redentora” da população escravizada. Organizada pela Associação Imprensa Fluminense, a cerimônia reforçava a ligação entre Igreja e monarquia, enquanto os movimentos abolicionistas e lideranças negras acabavam relegados ao segundo plano nas narrativas oficiais da época.
Além do valor histórico, a fotografia também evidencia desigualdades sociais presentes naquele momento. O registro mostra carruagens, bondes, vendedores ambulantes e pessoas acompanhando a missa das janelas das casas vizinhas, enquanto grande parte da população precisou seguir a pé até o local. Para o pesquisador, a imagem ajuda a compreender não apenas a celebração da abolição, mas também os desafios enfrentados pela população negra no período pós-escravidão. A fotografia segue preservada no Museu Louis-Philippe, no Castelo d’Eu, e deve ser exibida ao público ainda este ano em uma mostra sobre os 200 anos da invenção da fotografia.


