quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Prisão de Márcio Canella provoca constrangimento entre deputados e amplia desgaste político da Alerj


Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), que já havia chegado às eleições de outubro sob o impacto de uma crise política marcada por prisões e cassações de parlamentares ao longo da legislatura, voltou ao centro do noticiário policial nesta quinta-feira (15). Desta vez, o motivo foi a prisão do deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo candidato mais votado para a Casa nas eleições deste ano.

A nova prisão repercutiu negativamente entre os deputados e ampliou o desconforto dentro do Parlamento fluminense. A cerca de dois meses do encerramento do ano legislativo, quando a Assembleia tenta concluir suas principais votações, mais uma investigação criminal envolvendo um de seus integrantes eleitos reacende o debate sobre o desgaste da imagem institucional da Casa.

Durante a sessão ordinária desta quinta-feira, os poucos parlamentares presentes no plenário evitaram comentar o assunto. Nos corredores, entretanto, o clima era diferente. Enquanto alguns deputados preferiram não se manifestar, outros aceitaram falar sob condição de anonimato. Houve ainda quem comentasse publicamente a prisão e suas possíveis consequências políticas.


Prisão provoca desconforto nos bastidores

Um aliado de Canella, que pediu para não ser identificado, lamentou a prisão e destacou a votação expressiva obtida pelo ex-prefeito de Belford Roxo, que conquistou o segundo maior número de votos na disputa por uma cadeira na Alerj.

“É muito ruim para Casa essa prisão, não tenho dúvida mais essa prisão, até porque houve um grande apela para sua candidatura e o seu retorno. Sem contar que ele foi o segundo deputado mais votado do estado. Gosto muito dele, mas ainda é muito cedo para fazer qualquer tipo de avaliação. Não dá para fazer qualquer juízo de valor”, afirmou.

Outro deputado, também ouvido reservadamente, procurou separar a situação criminal de Canella das responsabilidades institucionais da atual legislatura. Segundo ele, como o político ainda não foi diplomado para o novo mandato, o episódio não envolve, neste momento, as prerrogativas parlamentares decorrentes da futura diplomação.

“O problema do deputado Márcio Canella não está com a Casa. Ele é apenas deputado eleito e só depois da diplomação tem suas garantias constitucionais de parlamentar estabelecidas. Não é um problema desta legislatura”, avaliou.

O deputado acrescentou que, até onde tem conhecimento, as acusações contra Canella são de natureza criminal, e não eleitoral. Por isso, afirmou não identificar motivo automático para impedir a diplomação de Canella.

O parlamentar também avalia que o ex-prefeito poderá enfrentar obstáculos políticos na próxima legislatura, caso consiga assumir o mandato. Segundo ele, Canella teria se distanciado do grupo do governador eleito Douglas Ruas (PL) ao apoiar, ainda que discretamente, a candidatura de Eduardo Paes (PSD) ao governo do estado.

Na avaliação dele, o distanciamento poderia dificultar eventuais articulações futuras caso a Assembleia seja chamada a tomar alguma decisão relacionada à situação do deputado eleito. Trata-se, porém, de uma interpretação política individual, sem confirmação de que exista qualquer procedimento dessa natureza em andamento.

Na avaliação do parlamentar, esse afastamento poderá dificultar a busca de apoio político para Canella caso a Alerj seja chamada, futuramente, a deliberar sobre sua situação.

Esquema em postos de combustíveis

Márcio Canella foi preso na manhã desta quinta-feira, durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal. Também foi detido o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.

Segundo a PF, a investigação busca desarticular uma organização criminosa armada suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio para lavagem de dinheiro. O grupo investigado teria participação de agentes públicos e articulação política.

As apurações envolvem suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de cartel, entre outros crimes. Uma rede de 96 postos de combustíveis teria movimentado aproximadamente R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Esta não é a primeira vez que Canella é preso no âmbito da operação. Em julho, durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão, agentes federais encontraram um fuzil em seu carro. O político foi preso em flagrante e posteriormente colocado em liberdade mediante medidas cautelares.