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| Foto: Ralph Braz | Pense Diferente |
Antes mesmo de boa parte da cidade começar o dia, eles já estão de portas abertas. De segunda a domingo, inclusive feriados, os jornaleiros acompanham o movimento das ruas, recebem clientes, organizam produtos e mantêm viva uma atividade que, em Petrópolis, atravessa gerações. Nesta quarta-feira (30), Dia Nacional do Jornaleiro, o Diário de Petrópolis conversou com profissionais que acumulam décadas de trabalho nas bancas da cidade.
Entre eles está Jorge Teixeira, que trabalha há 27 anos em uma banca na Avenida Barão do Rio Branco, próximo à Delegacia 105. Para ele, uma das principais mudanças ao longo desse período foi a queda na procura por jornais e revistas impressos.
“Antigamente vendia bem mais. Hoje em dia vende bem pouco. Caiu bem”, conta.
Banca de jornal na Avenida Barão do Rio BrancoJorge trabalha das 6h às 18h todos os dias, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Segundo ele, os clientes que ainda procuram a banca também mudaram. Além dos produtos tradicionais, como jornais e revistas, a procura por serviços e itens como recargas de celular ganhou espaço.
O jornaleiro também observa uma transformação no comportamento dos leitores. “O que está vindo é só os antigos mesmo. Os novos, só no celular”, afirma. Segundo ele, até pessoas mais velhas passaram a acompanhar as notícias principalmente pelo telefone.
Banca que precisou se reinventar
Na Rua do Imperador, próximo ao Edifício Apolo, nº 888, uma das bancas tradicionais do Centro de Petrópolis é comandada por uma história que também se confunde com a própria transformação do setor. Clóvis Neves Pinto, de 71 anos, trabalha há 36 anos no local.
Ele chega por volta das 6h20 e permanece até as 17h30. Depois, o proprietário, José Carlos do Amaral, que trabalha há cerca de 55 anos no setor, assume o atendimento até o fechamento da banca, por volta das 19h ou 19h30.
Clóvis conta que a queda nas vendas de jornais e revistas foi significativa. Segundo ele, revistas que anteriormente chegavam em dezenas de exemplares por semana, hoje praticamente desapareceram da rotina da banca.
“Antigamente vinha revista Caras, Ana Maria. Vinha 40, 50, vendia tudo na semana. Hoje nem vem mais. Parou tudo”, relata.
Com a mudança no hábito de consumo, a banca passou a ampliar a variedade de produtos. Cigarros, itens eletrônicos, carregadores, cabos, bonés, brinquedos e outros produtos passaram a dividir espaço com os jornais e revistas.
“Se fosse só depender de revista, já tinha fechado”, resume.
Apesar das mudanças, alguns produtos continuam atraindo públicos específicos. Os mangás, por exemplo, mantêm a presença de clientes mais jovens, enquanto os jornais têm maior procura aos domingos.
Para Clóvis, a banca também representa décadas de convivência com a população e acontecimentos da cidade. Ao longo dos anos, ele conta ter acompanhado enchentes, situações inusitadas e diferentes gerações de clientes.
45 anos atrás, uma história começava
Na mesma Rua do Imperador, em frente ao número 199, Carlos Henrique, de 60 anos, trabalha há 45 anos. Ele começou ainda jovem, ao lado do pai e do irmão. Hoje, depois da morte dos dois, continua à frente da banca.
A rotina é extensa: das 6h ou 6h30 até as 19h, praticamente todos os dias.
“Eu fico aqui o dia inteiro”, conta.
Banca de jornal na Rua do ImperadorAo longo de quatro décadas e meia, Carlos, emocionado, lembra que viu crianças que frequentavam a banca crescerem, formarem suas próprias famílias e voltarem ao estabelecimento com os filhos.
“Criança que eu dava bala já tem filho. Chega aqui: ‘Tu lembra? Tu me dava figurinha’. E agora eu dou para o filho dele”, relata.
Para ele, essa relação de confiança é uma das principais razões pelas quais os clientes continuam frequentando o local.
“70% da minha freguesia são pessoas que vêm todos os dias aqui na banca. E muitos desde quando eu estou aqui”, explica.
A banca também precisou acompanhar as mudanças do mercado. Hoje, além dos jornais, há produtos de tabacaria, doces, raspadinhas e outros itens. “A gente vai procurando dar o melhor da gente, porque tem que procurar fazer o que gosta e fazer com boa vontade”, afirma.
Uma profissão que atravessa gerações
Apesar das dificuldades e da redução nas vendas de jornais e revistas, os relatos mostram que o trabalho dos jornaleiros vai muito além da comercialização de produtos. As bancas funcionam como pontos de encontro, espaços de conversa e locais onde histórias da cidade são acompanhadas diariamente.
Os três profissionais ouvidos somam mais de um século de experiência na atividade. São décadas marcadas por mudanças no comportamento dos consumidores, pela chegada da internet e pela necessidade de diversificação das bancas.
Mas, para quem permanece atrás do balcão, uma característica ainda não mudou: a relação com o cliente.
Entre jornais, revistas, recargas, doces e outros produtos, os jornaleiros continuam acompanhando o cotidiano de Petrópolis, muitas vezes, por décadas, vendo gerações inteiras passarem pela mesma banca.
Nesta quarta-feira (30), quando a profissão é celebrada nacionalmente, as histórias de Jorge, Clóvis e Carlos mostram que ser jornaleiro também é guardar um pouco da memória cotidiana da cidade.

