quinta-feira, 16 de julho de 2026

Prisões, buscas e dinheiro vivo: escândalos atingem oito deputados na Alerj em dez meses


A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) atravessa uma sequência de escândalos policiais que atingiu, direta ou indiretamente, — pelos menos até agora — oito políticos eleitos para a Casa no último pleito, em 2022. Apenas nos últimos dez meses, vários deputados foram presos, tiveram casas e gabinetes vasculhados ou acabaram arrastados para o centro de investigações contra parentes próximos.

As apurações envolvem suspeitas que vão de fraudes em contratos públicos e lavagem de dinheiro a relações com o tráfico, o jogo do bicho e milícias. Em parte das operações, policiais e promotores também encontraram grandes quantidades de dinheiro vivo em imóveis, veículos e outros endereços ligados aos investigados.

O caso mais recente ocorreu nesta quinta-feira (16), quando o Ministério Público do Rio cumpriu mandados contra o deputado Rafael Nobre (União Brasil), denunciado, junto com outras nove pessoas — incluindo o vereador de São João de Meriti Magrão Nobre (União Brasil) —, por suspeita de participar de um esquema de fraudes em licitações que teria obtido R$ 357,9 milhões em contratos públicos.


Antes dele, operações atingiram diretamente TH Joias (MDB), Rodrigo Bacellar, Thiago Rangel (Avante) e Val Ceasa (PRD). A lista mais ampla inclui ainda Márcio Canella, já fora da Alerj quando foi alvo da Polícia Federal, além de Sarah Poncio e Alexandre Knoploch, cujos parentes foram presos em investigações realizadas neste mês.

Embora as situações jurídicas sejam diferentes, todos ficaram no centro da crise que assombra a Assembleia. Dos oito nomes, cinco estavam como deputados no exercício do mandato quando sofreram prisões ou buscas, um havia deixado a Casa e dois foram atingidos pelas investigações contra integrantes de suas famílias. No total, três parlamentares da Alerj já foram presos em menos de um ano.

TH Joias abriu a porteira


A sequência começou em setembro de 2025, quando o então deputado TH Joias foi preso durante a Operação Zargun. Ele havia assumido uma cadeira na Alerj três meses antes, como suplente, e foi apontado pela Polícia Federal como o principal braço político do Comando Vermelho (CV).

Segundo as investigações, TH usava a estrutura do mandato para favorecer integrantes da facção, negociar armas e drogas e lavar dinheiro obtido por meio de atividades criminosas. O parlamentar também teria nomeado pessoas ligadas ao grupo em cargos dentro da Assembleia.

A operação cumpriu mandados de prisão e busca contra agentes públicos e pessoas ligadas ao tráfico. Durante as buscas, os investigadores encontraram indícios de que TH havia sido avisado com antecedência sobre a ofensiva policial. Na véspera da ação, ele chegou a mobilizar um caminhão de mudança para retirar objetos de endereços que seriam vasculhados pelos agentes.

A apuração sobre o vazamento acabaria levando a Polícia Federal até o gabinete mais poderoso da Assembleia.

Prisão de Bacellar


Três meses depois, em dezembro, o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso na primeira fase da Operação Unha e Carne, suspeito de ter alertado TH Joias sobre a batida policial em endereços ligados ao deputado.

Conversas obtidas pela PF indicam que Bacellar teria orientado o colega a retirar objetos de imóveis e destruir provas que poderiam ser encontradas pelos investigadores. Na véspera da prisão de TH, os dois teriam conversado e se encontrado pessoalmente.

Durante as buscas, a PF apreendeu R$ 90.840 em dinheiro vivo e três celulares no carro oficial utilizado pelo então presidente da Assembleia.

A prisão provocou uma crise dentro da Alerj. Cinco dias depois, os deputados decidiram revogar a ordem e soltar Bacellar. O parlamentar, porém, continuou afastado do comando da Casa e voltou a ser preso em março, durante outro desdobramento da investigação.

Bacellar era, na ocasião, uma das principais figuras da política fluminense e peça central na organização do grupo do então governador Cláudio Castro (PL) para 2026. A prisão interrompeu a articulação e abriu uma disputa pelo controle da Casa e ampliou o vácuo na sucessão do governo do estado.

Esquema de desvio de recursos da Educação


Parte da lista dos deputados presos, Thiago Rangel foi detido em maio, durante a quarta fase da Operação Unha e Carne. A Polícia Federal o aponta como líder de um esquema de desvio de recursos de contratos de obras e serviços da Secretaria Estadual de Educação no Noroeste Fluminense, onde mantinha sua principal base política.

Segundo a investigação, o deputado teria usado sua influência para indicar aliados a cargos estratégicos, direcionar contratações e favorecer empresas ligadas ao grupo. Parte do dinheiro desviado teria sido movimentada por empresas de fachada e por uma rede de postos de combustíveis. Áudios e mensagens obtidos pela PF também mostrariam Rangel negociando nomeações com o traficante Junior do Beco, apontado pelas forças de segurança como chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) em Campos dos Goytacazes.

Em uma das mensagens apreendidas, um operador apontado como homem de confiança de Rangel enviou ao deputado uma foto de maços de notas de R$ 100 e R$ 200 com a palavra “Guardado”. Os agentes também apreenderam um carro de luxo avaliado em cerca de R$ 900 mil. A PF destacou ainda que o patrimônio declarado pelo parlamentar passou de R$ 92 mil, em 2019, para R$ 3,1 milhões ao fim de 2023.

Suspeita de ligação com o tráfico


Na esteira das acusações de ligações com o crime, em junho, a bola da vez foi Val Ceasa, alvo de uma operação do Ministério Público e da Polícia Civil por suspeita de usar sua influência política em favor de traficantes do TCP.

O deputado e seus aliados, incluindo um ex-vereador do Rio, foram acusados de terem atuado para tentar impedir a demolição de imóveis apontados pelas autoridades como parte do “resort do crime”, complexo construído pelo traficante Peixão, principal liderança do TCP no Rio, em uma área dominada pela facção no Complexo de Israel, na Zona Norte.

Na casa do parlamentar, agentes apreenderam R$ 166 mil em espécie e cerca de R$ 150 mil em outros imóveis vinculados a ele. Val Ceasa negou ter atuado em benefício do tráfico. Na tribuna da Alerj, afirmou que pretendia transformar o espaço em uma Vila Olímpica e classificou a operação como perseguição política.

Julho concentrou quatro escândalos em duas semanas

O cerco se intensificou em julho, quando quatro outros parlamentares foram atingidos por escândalos em menos de duas semanas.

No dia 2, a Polícia Federal prendeu o pastor e empresário Márcio Poncio, pai da deputada Sarah Poncio (Solidariedade), na quinta fase da Operação Unha e Carne. A investigação apura a ligação de políticos e autoridades com o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, apontado como integrante da nova cúpula do jogo do bicho no Rio.

Segundo a PF, Poncio teria ligação com a máfia dos cigarros comandada pelo contraventor, esquema relacionado a pelo menos 27 assassinatos e tentativas de homicídio nos últimos anos. A prisão preventiva foi posteriormente convertida em domiciliar. Sarah Poncio chegou a se manifestar sobre o caso e saiu em defesa do pai, afirmando confiar em sua inocência e que os fatos serão esclarecidos ao longo do processo.

Cinco dias depois, Márcio Canella, deputado estadual mais votado do Rio em 2022, foi preso na sexta fase da mesma operação. Apesar da influência na Casa, ele já havia deixado a Alerj após ser eleito prefeito de Belford Roxo e também renunciado à prefeitura para disputar uma vaga no Senado com articulação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Canella foi alvo de buscas em uma investigação sobre lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis, esquema que teria movimentado R$ 7,6 bilhões. A ação também mirou outros alvos importantes, incluindo o ex-secretário de Polícia Civil do Rio Marcus Amim, que esteve no cargo durante o governo Castro.

Durante as diligências, a PF encontrou um fuzil em um carro utilizado pelo político, que acabou preso em flagrante por porte ilegal de arma de uso restrito. Ele foi solto dias depois após decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a liberdade mediante o cumprimento de medidas cautelares.

Na última quinta-feira (9), o Ministério Público estadual mirou um esquema de corrupção que teria desviado R$ 80 milhões do Instituto Rio Metrópole, autarquia do governo fluminense. A operação prendeu Maurício Knoploch, pai do deputado Alexandre Knoploch (PL) e ex-diretor do órgão, apontado pelos promotores como um dos articuladores do desvio, além de Amanda Íthala Santos da Paschoa, cunhada do parlamentar e gestora de contratos da instituição.


O caso mais recente atingiu Rafael Nobre nesta quinta-feira. Além de ser denunciado por suspeita de integrar um esquema de fraudes em licitações na Baixada Fluminense, o deputado teve a casa e o gabinete vasculhados pelo Ministério Público. Na residência dele, foram apreendidos R$ 21 mil em espécie.