sábado, 22 de agosto de 2026

No dia de lembrar o tráfico de escravos, pesquisa revela abolicionismo e resistência em Petrópolis

Fotos: Ralph Braz | Pense Diferente

Nesse domingo (23) é o dia Internacional para Relembrar o Tráfico de Escravos e sua Abolição, instituída em 1997 pela UNESCO para registrar na memória coletiva a tragédia do comércio transatlântico de escravizados e honrar a resistência dos oprimidos.

Os arquivos do Museu Imperial e as páginas amareladas dos jornais Mercantil e Correio Imperial contam outra história sobre Petrópolis: entre 1884 e 1888, a "cidade de Pedro" viveu uma intensa movimentação abolicionista e abrigou, até o último momento, homens e mulheres escravizados que resistiram, fugiram e, em pelo menos um caso, mataram para conquistar a liberdade.



É o que mostra o historiador petropolitano Lucas Ventura da Silva, doutorando em História Política pela UERJ e membro do Museu da Memória Negra de Petrópolis, em trabalho apresentado no 32º Simpósio Nacional de História da ANPUH. Para ele, o apagamento da presença negra na cidade não é acidental, mas um silenciamento construído em torno da ideia de "Cidade Imperial", desmentida por atas da Câmara Municipal, anúncios de jornal e diários de figuras como o abolicionista André Rebouças.

O marco inicial da mobilização local foi a abertura do Livro de Ouro da Câmara Municipal, em 1º de março de 1884, ano decisivo para o abolicionismo brasileiro. A proposta partiu do vereador Bartolomeu Pereira Sudré, dono do Mercantil, e reunia doações para comprar alforrias, seguindo o exemplo da Corte e de Paraíba do Sul.

A pesquisa também recupera episódios de resistência escravizada. Em abril de 1888, o Mercantil publicou por oito edições avisos sobre a fuga de Alípio, Luiz e Eulália, escravizados do major Monteiro de Barros, cujos títulos de alforria (já concedidos na solenidade oficial de 1º de abril) aguardavam na redação do jornal. Já o caso de João Flauta, capturado em 1887 por um "crime revoltante", revela algo mais sombrio: segundo o levantamento, ele teria sido convencido por Guilherme Anastásio Duprat a matar o alemão Francisco Carlos Lischt em troca da liberdade. Flauta cumpriu o combinado, foi condenado e morreu em 1889; Duprat escapou das acusações.


Boa parte da arrecadação para alforrias em 1888 passou pelo carnaval. O Correio Imperial, jornal editado pelos filhos da princesa Isabel, propôs a "Batalha de Flores", inspirada no carnaval de Nice e Cannes, depois vinculada à causa abolicionista. Entre bailes, concertos e apostas no hipódromo, os festejos renderam 3:821$770 ao Fundo de Emancipação, com um marcador de classe nítido entre o baile "de elite" no Hotel Bragança e o baile popular do Salão da Floresta, este mais divulgado pelo jornal.

A solenidade de 1º de abril de 1888 reuniu a princesa Isabel, o conde d'Eu, ministros, diplomatas e lideranças abolicionistas como André Rebouças e José do Patrocínio, menos de dois meses antes da Lei Áurea. Mas o número exato de libertos segue incerto: a ata registra 103 cartas de alforria, o Correio Imperial chegou a publicar 127 (depois revisado para 115) e o Mercantil contou 101. Dias antes da solenidade, mais de 20 pessoas escravizadas na cidade ainda não haviam sido matriculadas por seus senhores, indício de resistência de proprietários ao processo.


No total, o levantamento identificou 17 manifestações públicas pela abolição em Petrópolis entre fevereiro e abril de 1888. Para o historiador, elas não foram mera formalidade da sociedade de Corte, mas estratégia política deliberada, num momento em que o Brasil era a última nação americana ainda escravista e sofria forte pressão diplomática internacional. "A 'cidade de Pedro' não estava, como nada na história, deslocada no tempo", escreve o pesquisador, para quem a experiência petropolitana deve ser lida dentro do movimento abolicionista nacional, e não como episódio isolado.

A pesquisa integra o mestrado e doutorado de Lucas Ventura da Silva na UERJ, com financiamento da Capes, e tem como base o acervo do Museu Imperial e a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.