O desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula na Sapucaí provocou forte repercussão política em Brasília, informa Lauro Jardim em sua coluna no jornal O Globo. De acordo com pesquisas e levantamentos internos aos quais o Palácio do Planalto teve acesso, o impacto do enredo foi considerado negativo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sobretudo na interlocução com o público evangélico.
A avaliação que circula nos bastidores do governo é de que o conjunto da apresentação não dialogou com um segmento que, neste momento, o Planalto busca atrair e consolidar. No centro da controvérsia está uma ala que representou a “família tradicional” dentro de uma lata de conservas — imagem que passou a ser vista, dentro do próprio governo, como símbolo do desgaste político provocado pelo desfile.
Reação dentro do governo
Integrantes do PT e aliados admitem reservadamente que houve desconforto com a repercussão da apresentação. Um líder petista resumiu o sentimento ao afirmar: “Todo um trabalho de aproximação com os evangélicos foi jogado fora”.
A leitura interna é que, num momento em que o governo tenta reduzir resistências e ampliar pontes com lideranças religiosas, o episódio acabou reforçando críticas e ruídos que vinham sendo trabalhados nos bastidores.
Um ministro de Lula também comentou o episódio, destacando que a polêmica demonstra que o governo não teve participação na construção artística do desfile. Segundo ele, a ala é a “prova de que o governo não teve qualquer interferência na concepção do desfile”.
Estratégia para conter danos
Diante da repercussão, o PT iniciou uma estratégia para conter o desgaste e evitar que o episódio seja explorado politicamente por adversários. A orientação é reforçar publicamente que a escola de samba tem autonomia artística e que não houve qualquer interferência do governo federal no enredo ou nas alegorias.
O presidente do PT, Edinho Silva, saiu em defesa do presidente Lula e da independência da agremiação. Ele afirmou:
“A Acadêmicos de Niterói teve e tem autonomia para definir seu enredo e suas alegorias, tentar utilizar uma construção da escola para atacar o presidente Lula chega a ser ridículo; todos sabem do respeito que ele tem pela comunidade evangélica, e pelas suas lideranças”.
Nos bastidores, dirigentes partidários avaliam que a narrativa de autonomia cultural precisa ser reforçada para evitar que a oposição associe diretamente o desfile ao Palácio do Planalto.
Impacto político e leitura eleitoral
O episódio ocorre em um contexto de disputas simbólicas em torno de pautas de costumes e valores familiares, temas que mobilizam fortemente o eleitorado evangélico. Pesquisas internas indicariam que a repercussão do desfile teve impacto negativo justamente entre esse público.
Apesar disso, integrantes do governo afirmam que a relação com lideranças evangélicas continua ativa e que o diálogo institucional não foi interrompido.
A controvérsia evidencia a sensibilidade política do Carnaval quando o espetáculo ultrapassa os limites da avenida e passa a ser interpretado sob a ótica eleitoral e ideológica.



