quinta-feira, 21 de maio de 2026

Deolane Bezerra é presa em operação contra lavagem de dinheiro do PCC



A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra foi presa na manhã desta quinta-feira (21) durante uma operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil que investiga um amplo esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A ofensiva, batizada de Operação Vérnix, também teve como alvo integrantes da cúpula da facção criminosa, incluindo Marco Herbas Camacho, o Marcola, considerado o principal líder da organização.

Marcola já está preso na Penitenciária Federal de Brasília, mas foi alvo de um novo mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça paulista. Além dele, familiares e operadores financeiros apontados como integrantes do esquema também foram atingidos pelas medidas judiciais.

As autoridades afirmam que a investigação revelou uma complexa estrutura financeira usada pelo PCC para ocultar e movimentar recursos ilícitos por meio de empresas de fachada, contas bancárias de terceiros e aquisição de patrimônio de alto valor.

Ao todo, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão em diferentes estados e medidas de bloqueio patrimonial que ultrapassam R$ 357 milhões.
Esquema teria usado transportadora ligada ao PCC

Segundo a investigação, o núcleo financeiro operava a partir de uma transportadora de cargas sediada em Presidente Venceslau, no interior paulista. A empresa teria sido usada pela facção criminosa para lavar dinheiro oriundo de atividades ilícitas e distribuir recursos à cúpula do grupo.


Os investigadores afirmam que a transportadora era controlada por integrantes ligados diretamente à liderança do PCC e servia como braço financeiro da organização criminosa.

A apuração aponta que Everton de Souza, conhecido como “Player”, exercia papel estratégico na movimentação dos recursos. Ele foi preso durante a operação e aparece em mensagens interceptadas orientando a distribuição de dinheiro e indicando contas bancárias utilizadas nos repasses.

A defesa dele não foi localizada até a publicação da reportagem.

Também foram alvos da operação Alejandro Camacho, irmão de Marcola, além dos sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho.

Segundo a polícia, Paloma estaria na Espanha e atuaria como intermediária nos negócios da família. Já Leonardo estaria na Bolívia e seria o destinatário final de parte dos valores lavados pela organização criminosa.

Deolane retornou ao Brasil um dia antes da prisão

Deolane Bezerra vinha passando as últimas semanas em Roma, na Itália. O nome dela chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas a influenciadora retornou ao Brasil na quarta-feira (20), um dia antes da operação.

Agentes da Polícia Civil cumpriram mandados de busca e apreensão na residência dela, em Barueri, na Grande São Paulo, além de outros imóveis ligados à influenciadora.

O influenciador digital Giliard Vidal dos Santos, apontado como filho de criação de Deolane, e um contador ligado ao grupo também foram alvos de buscas.

As autoridades afirmam que o celular apreendido na casa de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central da organização, continha imagens de depósitos destinados às contas de Deolane Bezerra e de Everton de Souza.

Ciro Cesar Lemos está foragido, assim como sua esposa.

Investigação começou em 2019

As investigações tiveram início em 2019, após a apreensão de bilhetes e manuscritos com dois detentos da Penitenciária II de Presidente Venceslau.

O material levou à abertura de três inquéritos sucessivos que, segundo o Ministério Público, permitiram desvendar diferentes camadas da estrutura financeira do PCC.

No primeiro momento, os investigadores identificaram ordens internas da facção, referências a integrantes de alto escalão e até menções a possíveis ataques contra agentes públicos.

Um dos pontos que chamou atenção da polícia foi a referência a uma “mulher da transportadora”, apontada nos bilhetes como responsável por levantar endereços de servidores públicos para possíveis ações criminosas.

A partir dessa informação, os investigadores chegaram à empresa de transporte posteriormente apontada como organização de fachada para lavagem de dinheiro.

A apuração deu origem à Operação Lado a Lado, deflagrada em 2021, que revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem justificativa econômica e a utilização da transportadora como centro operacional da facção.

Conexão com Deolane surgiu após análise de celular

Segundo o Ministério Público, a ligação entre Deolane Bezerra e o esquema criminoso surgiu após a análise do celular de Ciro Cesar Lemos.

Os investigadores afirmam que ele atuava diretamente na compra de caminhões, administração de patrimônio, execução de ordens de Marcola e movimentação de recursos da cúpula da facção.

As apurações indicaram que valores provenientes da empresa Lopes Lemos Transportes eram destinados a Marcola, Alejandro Camacho e familiares, utilizando contas de terceiros para circulação do dinheiro.

Entre os nomes identificados aparecem Everton de Souza e Deolane Bezerra.

A investigação também sustenta que a influenciadora mantinha vínculos pessoais e comerciais com um dos gestores ocultos da transportadora.

Segundo os investigadores, foi justamente a partir desse material que nasceu a Operação Vérnix, focada em aprofundar suspeitas de lavagem de dinheiro com uso de empresas, patrimônio de luxo e movimentações financeiras milionárias.

Depósitos fracionados levantaram suspeitas

O relatório da investigação aponta que Deolane Bezerra recebeu R$ 1.067.505,00 em depósitos fracionados entre 2018 e 2021.

Os valores teriam sido divididos em operações abaixo de R$ 10 mil, prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar o rastreamento pelos órgãos de controle financeiro.

Segundo a polícia, Everton de Souza indicava as contas da influenciadora para os chamados “fechamentos” mensais do esquema.

Outro ponto destacado na investigação envolve quase 50 depósitos feitos em empresas ligadas a Deolane, totalizando cerca de R$ 716 mil.

Os repasses partiram de uma empresa apresentada como banco de crédito, registrada em nome de um homem residente na Bahia com renda estimada em aproximadamente um salário mínimo.

A investigação afirma que não foram encontrados pagamentos relacionados aos supostos créditos recebidos, o que foi interpretado como possível mecanismo de ocultação de recursos ilícitos.

Os investigadores também afirmam não ter localizado registros de prestação de serviços advocatícios capazes de justificar os valores recebidos por Deolane e suas empresas.

Justiça apontou risco de fuga e destruição de provas

Ao autorizar as prisões preventivas, a Justiça de São Paulo considerou haver fortes indícios de autoria e materialidade dos crimes investigados.

A decisão destaca movimentações financeiras suspeitas, vínculos diretos com a organização criminosa e a possibilidade de continuidade das atividades ilegais mesmo com integrantes presos.

Segundo a decisão judicial, havia risco concreto de destruição de provas, interferência nas investigações e ocultação de patrimônio.

O Judiciário também entendeu que medidas cautelares alternativas seriam insuficientes diante da “sofisticação do grupo” e do fato de alguns investigados estarem fora do país.

Além das prisões, a Justiça determinou o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões.

No caso de Deolane Bezerra, foi autorizado o bloqueio de R$ 27 milhões, valor que, segundo a investigação, não teve origem comprovada e apresenta indícios de ligação com lavagem de dinheiro.