segunda-feira, 4 de maio de 2026

Black Hawk de R$ 70 milhões pode ter compra suspensa por Ricardo Couto


A compra de um helicóptero Sikorsky UH-60L Black Hawk, avaliada em cerca de R$ 70 milhões, entrou na mira do novo comando interino do Governo do Rio e pode ser suspensa. O secretário da Casa Civil, Flávio Willeman, confirmou que o contrato está sob análise e que ainda não há prazo para decisão final. A informação é do blog Segredos do crime, de O Globo.

Segundo a pasta, estão sendo examinadas questões técnicas e jurídicas relacionadas ao processo de aquisição da aeronave, formalizado ainda durante a gestão do ex-governador Cláudio Castro.

O Black Hawk havia sido anunciado por Castro em janeiro deste ano como uma “aquisição histórica” para a Polícia Militar do Rio, com promessa de entrega antes de abril. O prazo, porém, expirou sem a chegada da aeronave.

Uso em comunidades gera preocupação na nova gestão

Entre os principais pontos analisados pelo governo interino está o impacto operacional do helicóptero em áreas densamente povoadas, especialmente favelas.

O governador interino Ricardo Couto, atual presidente do Tribunal de Justiça do Rio, teria levantado preocupação sobre o efeito causado pelas hélices da aeronave em voos de baixa altitude. O chamado “rotor wash” — fluxo intenso de ar gerado pelas pás — pode provocar danos em estruturas frágeis, como telhados e coberturas leves.

Fontes do governo apontam que há receio de que a operação do modelo em comunidades possa destelhar imóveis e gerar riscos adicionais a moradores.

Casos semelhantes já foram registrados no exterior. Em 2024, um Black Hawk da Guarda Nacional dos Estados Unidos causou destruição de tendas e espalhou suprimentos durante uma operação de ajuda humanitária na Carolina do Norte após o furacão Helene.

STF mantém restrições ao uso de helicópteros em operações

O debate sobre o uso da aeronave também esbarra em restrições judiciais já existentes no Rio.

Desde 2020, operações policiais com helicópteros em comunidades são limitadas por decisão do Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.

Em abril de 2025, o STF manteve por unanimidade as restrições e determinou que forças de segurança criem protocolos específicos para uso de aeronaves, blindados e drones, além de comunicação obrigatória ao Ministério Público.

A decisão exige comprovação de “estrita necessidade” para utilização de helicópteros em operações.

Contrato foi firmado nos últimos meses do governo Castro

O Contrato nº 002/2026 foi formalizado em fevereiro, resultado de pregão eletrônico internacional aberto em agosto de 2025.

O processo foi iniciado pela Diretoria-Geral de Apoio Logístico da Polícia Militar e homologado no Tribunal de Contas do Estado poucos dias antes do anúncio público feito por Cláudio Castro.

A Secretaria de Polícia Militar informou que o contrato permanece válido e que a empresa Blue Air Táxi Aéreo Ltda. tem prazo de 12 meses, contados da assinatura, para entregar a aeronave.

Mesmo com a revisão em curso, oficialmente não há cancelamento confirmado até o momento.

Black Hawk seria inédito entre polícias estaduais

Caso a aquisição seja concluída, a PM do Rio se tornará a primeira polícia estadual brasileira a operar um helicóptero Black Hawk.

O modelo adquirido é usado, não novo, e contará com blindagem reforçada. Sistemas militares sensíveis, como contramedidas antimísseis e armamento lateral, não serão incluídos por restrições da legislação dos Estados Unidos.

Atualmente, a frota aérea da PMERJ conta com modelos Bell Huey II, Leonardo AW169, AW119 e Airbus H125 Esquilo.

Com velocidade máxima de 294 km/h, autonomia de aproximadamente 590 km e capacidade para até 11 soldados equipados, o Black Hawk seria a maior aeronave tática da corporação.

Mudança de governo ampliou revisão de contratos

A compra do helicóptero foi um dos últimos atos relevantes de Cláudio Castro antes de deixar o cargo para disputar vaga no Senado.

Após sua saída, o Rio passou por crise sucessória envolvendo mudanças no comando estadual, renúncias e decisões judiciais.

Ricardo Couto assumiu interinamente o governo e promoveu alterações em áreas estratégicas, incluindo a nomeação de Flávio Willeman para a Casa Civil.

A revisão do contrato do Black Hawk ocorre neste contexto de reorganização administrativa e reavaliação de contratos firmados no fim da gestão anterior.

A empresa fornecedora e Cláudio Castro foram procurados, mas não haviam se manifestado até a publicação.