A crise na cidade de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense não se limita mais a comércios fechados, a falta de emprego formal e quase metade da população recebendo benefício social. A cidade vive uma crise sem precedentes no que se diz a moradores em situação de rua. Hoje vemos uma cidade onde a região central, virou abrigo a céu aberto, onde famílias moram, em frente a sede do Correios e do INSS, na frente do Museu Histórico de Campos e espaços públicos.
| Praça do Jardim do LICEU |
A praça do LICEU na área nobre da cidade, passa pelo mesmo problema, onde o coreto virou abrigo. A insegurança impede que famílias utilizem o local para passear com seus pets e crianças, no final de tarde e finais de semana.
Os semáforos, passaram a ser parada obrigatória não somente para veículos , mas também para pedintes. Hoje na área central o que se vê são diversos moradores em situação de rua, parados nos sinais pedindo esmolas, ou vendendo paçocas. No centro da cidade, no cruzamento da Avenida Visconde do Rio Branco, com a Avenida 28 de março (Canal Campos-Macaé), avenida de grande fluxo na cidade, o que vemos são diversas pessoas abordando os veículos.
Terminal rodoviário Roberto Silveira, localizado no centro é palco de brigas constantes entre eles e até a uso de facas, fazendo vítimas como já ocorreu diversas vezes no local. Já no seu entorno, casas abandonadas são invadidas e furtadas por eles, levando tudo o que possa ser vendido. E os poucos moradores que ainda residem no Centro, tem que colocar cercas, arrames farpados, cães, vigilância eletrônica para se proteger.
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| Foto: Silvana Rust |
Samuel Pinheiro da Cruz Ferreira Neves carrega uma nova identidade em meio a uma realidade comum em Campos: a vida nas ruas. Desde dezembro, está em um abrigo na Praça do Flamboyant I.
Sentado em um caixote, se acomoda em um cenário composto pela bíblia, por jornais e um caderno de anotações, além de alguns pertences. Diz que está no local de passagem, mas como parte de uma rotina de quem está à margem da sociedade, vivendo pelas ruas.
“Estou aqui de passagem. Rotina mesmo. Vivo na rua desde 2023. Fico aqui lendo, vou ao Centro catar latinhas e garrafas pet, e volto. Não sei sobre o amanhã, não tenho expectativa. Penso apenas em continuar absorvendo as palavras da bíblia. Eu era viciado, ficava na rua bebendo a noite toda. Quase perdi minha vida para as drogas. Encontrei na oração a libertação”, diz.
Samuel relata ainda que é pai de um menino de 7 anos, mas não o vê desde 2022. Também conta que a mãe mora no Jóquei, e que a última pessoa da família que viu, foi o irmão. Samuel chamou atenção para o atual cenário social local. “O que me trouxe aqui foi a superlotação na cidade. Já estive na Praça São Salvador antes. Agora busquei um lugar menos aglomerado. Não sei até quando vou ficar, não penso em nada além do hoje”, comenta.
A vida no espaço público
A reportagem conversou também com Ana e Vitor Hugo, conhecidos como “casal do Cais da Lapa”. Juntos há 17 anos, estão no Cais há sete. Chegaram a sair em 2024, quando o espaço voltou a ser mais utilizado como área para eventos. “Disseram que era cartão postal da cidade e a gente tinha que sair”, relata Vitor Hugo. Na barraca montada no início do Cais, ele guarda os materiais de trabalho, no mesmo pequeno espaço onde ficam seus pertences, como roupas, panelas e fogão improvisado. Afirma que já foi oferecido a eles vaga em abrigo, mas que não querem ir. “Lá não temos direito a fazer nada como queremos, do nosso jeito. Não temos liberdade, não é a nossa casa”, declara.
Questão que vai além da escolha
A psicóloga Nilvia Coutinho destaca que a vida nas ruas nem sempre é resultado de uma escolha individual, mas de um conjunto de fatores sociais e emocionais. “São situações complexas, que exigem cuidado e responsabilidade. Não é possível reduzir a permanência de uma pessoa na rua a uma simples escolha. Em geral, há uma trajetória marcada por dores, rupturas e fragilização de vínculos familiares, sociais e institucionais”, afirma.
Ela ressalta que a resposta não deve se limitar ao acolhimento emergencial. “Mais do que uma vaga em abrigo, essas pessoas precisam de uma rede de cuidado e de reais possibilidades de reinserção, envolvendo assistência social, saúde mental, família — quando possível — e políticas públicas contínuas”, completa.
Em nota, a secretaria municipal de Assistência Social e Cidadania informou que o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) já realizou abordagens sociais ao casal citado, mas que o suporte ofertado foi recusado. De acordo com a nota, o Centro Pop oferece atendimento às pessoas que vivem em situação de rua. “Por meio da unidade e das abordagens sociais, realizadas diariamente em diversos pontos do município, como abrigos, regularização de documentos, encaminhamento para serviços de saúde e vagas de emprego. Porém, a decisão de aceitar ou não o atendimento é do indivíduo”, explicou.
Com informações Pense Diferente e J3 News

